segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pátria de chuteiras, caminhe descalça



A expressão “pátria de chuteiras” foi uma invenção do governo brasileiro á época ditatorial, e pretendia significar que quando entrava em campo, a seleção de futebol representava a nacionalidade brasileira. Não sabemos se a força simbólica de tal expressão atingiu aos jogadores da seleção brasileira, mas o certo é que o futebol apresentado pela seleção de Pelé & Cia é tido como um dos mais belos já apresentados nos gramados de todos os tempos.
Passados 40 anos daquele evento a expressão volta a aparecer no imaginário esportivo. Isso decorre da interpretação dos discursos do técnico da seleção, Dunga, que diz constantemente que “ quem não está comigo está contra o Brasil” ( não o Brasil time, mas o Brasil nação) e outras do tipo de cunho nacionalista ou patriota. Melhor seria, então, corrigirmos a expressão e dizermos: a pátria como chuteiras (mas se fossemos discutir isto com nosso ilustre treinador ele nos xingaria antes de terminarmos a dissertação)
O fato é que sempre em períodos de copa um furor nacionalista é acionado. Pintamos de verde amarelo, vestimos a camisa canarinho, até corneta aprendemos a tocar, mas será isso nacionalismo? O povo brasileiro ainda se identifica com seu país, mesmo que essa identificação ocorra pelo futebol? Há ainda espaços para nacionalismos?
Nelson Rodrigues disse uma vez que “brasileiro tem complexo de vira-lata”. A esse fenômeno assistimos durante 3 anos e 11 meses seguidos, através de maldições ao país: “País de corruptos”, “País onde nada vai pra frente” dentre outras. Aí a televisão é ligada e torcemos feitos crianças sem mamadeira, vibramos como se o lance dos atletas canarinhos fosse nós que o fizemos.Mas se o Brasil perde, a desgraça volta.Temos um patriotismo que se mede em 90 minutos, temos um amor que dura enquanto há celebração do gol.
Mas talvez isso não seja patriotismo, seja outra coisa (mesmo não sendo romântico, não acredito que um amor seja assim tão breve), e essa coisa chama-se marca.
Quando estamos de frente a TV, nós vestimos uma marca. A marca Brasil, marca de sucesso. Cinco estrelas, talvez amanhã seis. Uma marca reconhecida, vangloriada que está timbrada em nosso peito.E dele usamos, abusamos e depois a largamos quando ela sai de moda.
È é tão moda que se faz como tecnologia globalizada, veja quantos jogadores naturalizados; que se faz com intercambio de conhecimento, veja o tanto de técnicos estrangeiros que comandam seleções de outros países; faz-se escondida em fábricas espalhadas por todo mundo (alguém vê o Elano jogar durante o ano que não seja na seleção?). E aí, a marca é posta nas bolsas de valores do futebol, particularmente conhecidos como bolões, e cada vitória corresponde a crescimento na cotação.
Mas que isso não seja algo mal. Vamos aprender a ser modernos e separar as esferas de valores.Futebol é futebol, política é política e ás vezes Brasil não seja Brasil. E aprendamos como nossos jogadores: é jogando descalço que se conquista as melhores chuteiras.

Pedro Henrique Corrêa Guimarães.

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Um comentário:

  1. Concordo contigo, Henrique. Contudo, deixo claro aqui, o meu envolvimento às vezes cego,com essa febre chamada futebol. Um tema que envolve a sociologia, a química, a física, a história, filosofia, psicologia e outras áreas do pensar.
    Que pena que seja usado pelo Estado como forma de mascarar as nossas deficiências.
    Um abraço.

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