sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mãe Dináh vai ao concurso







Quem já foi aluno de cursinho, provavelmente já passou pela seguinte experiência em uma aula de Redação: o professor, que deveria ensinar a escrever, chega em sala, apresenta uma proposta feita por ele e, então, fala o que pensa a esse respeito. O texto feito pelo aluno em casa deve ser uma representação da visão apresentada pelo professor.
Bem, essa visão de aula de redação baseia-se na concepção de que a produção de um texto é basicamente a constituição de ideias sobre um tema e que, tendo a ideia, o resto se resolve. Quanta ingenuidade!
Quantas vezes na minha época de aluno de cursinho eu assistia a uma ótima aula de redação e, quando ia escrever em casa, percebia que o professor não havia me ensinado a escrever aquele texto. O que eu tinha eram ideias que o professor discutiu, mas, por mais que eu as escrevesse, a corretora escreveria na minha redação:
- Está sem articulação. Use a coletânea. Seja criativo.
Ironia das ironias era perceber que nas aulas meu professor nunca falava de articulação, coletânea e se falava de criatividade era pouco claro:
- Seja criativo. (Mas isso a corretora já não tinha dito?)
Dessa forma, ao dar aulas, sempre achei que é desimportante discutir temas em uma sala com cem alunos. Simplesmente porque no vestibular, ou no concurso, não é assim.
Imaginem a cena ridícula: o fiscal chega com a prova, lê a coletânea com os concorrentes, todos se reúnem em torno da discussão, e então, escrevemos. É assim? Não, porque ao falar a respeito de um tema eu estou influenciando o outro. E, logo, ele não está fazendo a redação dele.
Por isso as aulas de redação deveriam se concentrar em recursos, ferramentas para ajudar os alunos. Em uma aula eu ensino a usar a coletânea, na outra a construir coerência, em outras eu melhoro o uso dos elementos coesivos. E, sim, eventualmente eu posso falar sobre o tema, mas sem essa balela de :
- Olha, esse ano o tema pode ser tal.
Como se adivinhar fosse função do professor! O bom professor não é aquele que “adivinha” o tema, mas aquele que oferece tantas ferramentas para o aluno que, mesmo que ele não tenha falado do tema, a prova pareça fácil. É bom esclarecer que não estou apontando críticas a pessoas e sim a posturas. Posturas que na minha concepção e na de muitos alunos deveriam ser revistas. Aliás, é bom dizer que acontece sim de um professor falar em sala daquilo que cai na prova. Tem professores que há anos dão aulões antes da primeira fase do vestibular que parecem uma xerox da prova da Federal, mas minha gente, isso não é adivinhação, é competência. As aulas se parecem com a prova porque o profissional é preparado, conhece o conteúdo, lê a prova todos os anos e tem uma ideia das relevâncias a apresentar. Mas falar que adivinhou é golpe baixo. Afinal, nós somos professores ou mães Dinás?
Se eu tiver aula em um cursinho quero entender porque às vezes eu travo para escrever e como fazer para isso parar. Eu quero saber unir minhas palavras e frases sem que meu texto fique confuso. Importante: eu não desprezo as ideias do meu professor, mas eu quero aprender a ter as minhas.
Talvez os professores queiram discutir os textos com os alunos por achar que falta a eles o mais fundamental: pensar. Essa idéia é preconceituosa e já a ouvi de alguns colegas. Não se ensina ninguém a pensar, ensina-se a organizar o pensamento em texto. Afinal, se pararmos para refletir também não se ensina ninguém a escrever, pelo menos não no cursinho. Ensina-se a organizar um processo que às vezes ficou pelo meio. O aluno já é alfabetizado – por vezes com dificuldades – o que ele precisa é ser preparado para que um leitor consiga diante daquilo que ele escreveu chegar até a linha 40 e entender seus argumentos.
Vai uma mãe Diná aí?


Caetano Mondadori.

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6 comentários:

  1. Perfeito! Nem há o que comentar, está tudo muito bem dito no texto. Beijão da Lu.

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  2. Amigo William, esse texto está muito bom. Acredito que muitos alunos vão precisar de uma mãe Diná por perto na hora de escreverem suas redações... kkkkkkk Abraços. Roniel.

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  3. Pra mim a redação tem pelo menos 3 partes: uma introdução interessante, um desenvolvimento inteligente e uma conclusão brilhante. Se tiver dificuldade de ordenar o pensamento e transformá-lo em palavras, deve-se fazer uma lista com as ideias que vai abordar na redação. Depois ajeita a ordem da lista, vê o que é melhor falar primeiro, o que ficará no fim, etc.

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  4. O segredo para se ter uma boa redação são três fases: primeira na infância, quando alfabetizada: "leitura", segundo na adolescência quando estudando: "leitura", terceiro na fase adulta quando se preparando para concursos e trabalhos:"leitura". Infelizmente a maioria dos nossos jovens não tem o habito de ler. Nenhum curso ou professor, ensina redação, o professor pode ensinar técnicas, mas não escrever. O aluno só vai aprender a fazer uma redação, lendo, a leitura enriquece o vocabulário e traz idéias, assuntos, ao leitor. É triste saber que um aluno vai para um vestibular, sem saber escrever começo, meio e fim de uma redação. Já pensou,um aluno que fez primário, ensino fundamental e ensino médio sem saber escrever? o que será que êle deve ter aprendido então, hein? se a escrita é a base de tudo. Penso que se para uma redação precisa de uma Mãe Dinah,para um concurso de trabalho precisa Mãe Dinhah, Robério de Ogun, e outros mais, aé apelar prá boca do Sapo.

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  5. O currículo oculto é muitas vezes desvalorizado. Muitos educadores ainda pensam, equivocadamente, que podem ensinar algo a alguém. O conhecimento vem de dentro para fora (isso é socrático). Privilegia-se demasiadamente os conteúdos e promove-se poucas discussões, com isso, o discernimento fica limitado e com ele,o poder argumentativo.
    Um abraço.

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  6. o mal de todo mundo é que no seio da familia não se vê o hábito da leitura e da análise do que se leu. E que é que vence? A TV, com suas idéias prontas e acabadas...

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