segunda-feira, 15 de março de 2010

A violência e a educação



A mobilização nacional contra a violência é um imperativo do turbulento momento que estamos vivendo. O Senado e a Câmara Federal têm se esforçado no sentido de amenizar o problema da violência no Brasil e aprovaram diversas propostas que aumentam o rigor no combate à criminalidade. É do senador Demóstenes Torres a sugestão de dar aos Estados da Federação autonomia para legislar sobre segurança pública. Relator de vários projetos que prevêem a redução da maioridade penal, hoje de 18 anos, o parlamentar goiano propõe limite de 16 anos, considerando que a violência no País deve ser tratada com medidas rigorosas em vários setores. Sua idéia é também a de se promover a educação de qualidade em tempo integral, que pode contribuir para evitar que as nossas crianças ingressem no mundo do crime.


Muita razão assiste ao senador Cristovam Buarque ao defender uma revolução que começa pelo próprio conceito de revolução, por ele classificada como “revolução doce”, em que não se modifiquem regimes econômicos e procure-se obter um capital sintonizado no futuro através da educação. “Tem alguma coisa errada neste País – acrescenta. Esperava que, no século 21, tenha passado uma hora discutindo projetos para não dar incentivos a quem explora o trabalho escravo. A gente precisa de uma revolução e não de medidas paliativas que não levam a nada.”


A Ordem dos Advogados do Brasil, guardiã da lei e da ordem democrática, manifestou-se contrária à proposta de tratamento diferenciado de jovens a partir dos 16 anos que cometerem homicídios ou crimes hediondos. A Comissão de Direitos Humanos da respeitável instituição critica a atuação dos órgãos responsáveis pela detenção de jovens infratores e por não agirem como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente, ou seja, atuando na profissionalização dos internos, propiciando-lhes alternativas ou qualquer tipo de amparo.
Muitos no Congresso Nacional preconizam uma política diferenciada dentro do sistema socioeducativo, embora não acreditem que o nosso sistema penal tenha condições de construir uma atenção particularizada. O senador Cristovam Buarque assinala que há no Brasil uma “sociedade de castas”, formada por incluídos e excluídos, eis que as pessoas não se tratam como semelhantes e o País vive um “apartheid” implícito. Na sua opinião, só a educação é a única forma de se enfrentar a situação, mas como essa mudança seria a longo prazo, ele sugeriu que, em alguns casos, os adolescentes mais violentos sejam tratados de maneira diferenciada. Também ele estranha que no Brasil se comemora o fato de 95% das crianças estarem matriculadas no ensino básico, quando deveria lamentar que 5% não estejam.


O fato é que precisamos com urgência solucionar esse problema. A violência avança por todo o território nacional e a insegurança da população está cada vez mais a exigir providências enérgicas e imediatas do governo. É dramática a situação nacional no que diz respeito à formação moral de nossas crianças, que estão freqüentando agora o ensino básico. Mais grave ainda é a da saúde, pois os médicos reclamam melhores salários compatíveis com o seu exercício profissional e o governo diz que não há como atendê-los. Há necessidade de mudanças na legislação da Segurança Pública, medidas que protejam o Estado Democrático de Direito e, em conseqüência, a vida e dignidade das pessoas. Uma agenda preventiva à violência poderia ser adotada pelo governo e, sem tardança, investir mais na educação e na saúde dos brasileiros, sobretudo aqueles carentes que imploram uma salvaguarda para o seu futuro.

José Luiz Bittencourt

domingo, 14 de março de 2010

Toda infidelidade é burra



Pesquisadores ingleses colocaram mais um tijolinho na muralha que divide os homens entre fiéis e infiéis. Agora, de acordo com os números apurados, os comportadinhos tendem a ter um QI mais elevado do que os peraltas. Em outras palavras, a inteligência seria um traço mais frequente nos rapazes monogâmicos. Ou, sem perder a graça, fica revogada aquela máxima que diz: duas cabeças pensam melhor do que uma. Pela nova lógica, a sabedoria repousa em não dar ouvidos aos argumentos sempre muito urgentes da cabeça pélvica, má conselheira contumaz. Parênteses: estranhamente, tal relação não apareceu entre as mulheres pesquisadas.

De modo tão instantâneo quanto o nascimento da exceção quando proposta a regra, surgiram piadas assim que anunciaram o resultado da curiosa pesquisa. As primeiras que ouvi: burrice é trair e ser flagrado; homem inteligente jamais admite que trai (nem mesmo em pesquisas); tudo não passa de uma conspiração dos chifrudos para desqualificar os amantes da esposa. Outra foi indagar a legitimidade dos ingleses e norte-americanos para servirem de parâmetro quando o tema é sexo, o que faz muito sentido... E a melhor de todas: homem inteligente não trai a esposa porque é solteiro! A enorme repercussão da pesquisa prova, sem dúvida, o sucesso que é debater nossa sexualidade.

Nessas todas fiquei com algumas dúvidas: estaria a fidelidade tão desprestigiada nos dias de hoje a ponto de precisar outra virtude associada para enaltecê-la? Ou, ainda pior, um homem casado assumiria a fidelidade não por ser o correto em termos éticos, e sim para contemplar a opção mais racional? Valeria mais escapar de um divórcio oneroso do que corresponder verdadeiramente a um juramento de lealdade? Quando a (re)pressão sexual se distende, o senso comum aponta justamente para o caminho contrário, ou seja, anormal é aquele que fica de fora da festa, da orgia. Periga ter safado se comportando melhor por pura malandragem!

Eu, muito particularmente, continuo fiel a minha teoria que divide os homens e as mulheres nos grupos com e sem vergonha. De acordo com ela, os com vergonha são fiéis por natureza e total incompetência para agirem de outra forma. Se pularem a cerca, ou serão flagrados, ou terminarão confessando para aplacarem a torturante culpa. Já os sem vergonha ‒ que fazer? ‒ não traem por maldade: apenas respondem a uma verdade pessoal. Para eles, para elas, casos extraconjugais não representam necessariamente uma traição. Sexo e compromisso estão em gavetas separadas. Enfim, contrariando a pesquisa, a fidelidade estaria muito mais ligada aos traços de personalidade, anteriores ao casamento ou namoro, do que aos níveis de QI.

Porém, correndo sérios riscos de parecer moralista, quando um pacto de confiança existe, assinado ou não, considero toda infidelidade burra. Afinal, desobedecer regras ‒ romper compromissos ‒, sempre implica sanções. Por mais que existam justificativas (e elas sempre existem), quem trai perde a causa. Para escapar dessa armadilha, a única saída é o diálogo. No momento em que ambos refazem os pactos, casos extraconjugais deixam de ser deslealdades. Antes disso, ou quando isso não é possível, o traidor estará sempre constrangendo, ferindo e humilhando a pessoa amada.

Opa! Agora a vaca foi para o brejo: inventei de falar de amor no final da crônica. Logo dele, que tem o poder de tornar irrelevante o embate entre o instinto e a razão...

Rubem Penz.

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O unobtainium é nosso



O crítico de cinema da revista The New Yorker David Denby flagrou duas das ironias de Avatar. O filme é, ao mesmo tempo, contra a tecnologia – máquinas de guerra supersofisticadas são derrotadas por arcos e flechas com a ajuda espiritual da Natureza – e o mais empolgante exemplo de tecnologia avançada que já se viu no cinema. E é um filme abertamente, panfletariamente anti-imperialista que está batendo recordes de renda onde quer que o império do cinema americano alcançou, em muitos casos tendo liquidado culturas locais. Como disse o diretor James Cameron aos seus pares quando recebeu o Globo de Ouro por Avatar: “Gente, nosso trabalho não é o melhor trabalho do mundo?” É um trabalho à prova de contradições.

Cameron confia tanto no poder embasbacador do seu filme que não se dá o trabalho de entrar em detalhes. Nunca se fica sabendo o que os habitantes de Pandora e os avatares respiram através daqueles narizes achatados, já que oxigênio não é. E nunca fica claro por que o tal mineral “unobtainium” é tão importante para os invasores terrenos, a ponto de justificar o massacre dos nativos. Como o mineral não é identificado, fica-se autorizado a substituir “unobtainium” por “petróleo” para reforçar a analogia anti-imperialista. E para não haver dúvidas, no filme há uma rápida referência a outra invasão americana quando alguém comparara a tática que será usada contra a resistência nativa ao choque e espanto, “shock and awe”, nome dado as primeiras operações no Iraque. Os vilões do filme não são exatamente as forças armadas americanas, são mercenários pagos por empresários predadores para fazer seu trabalho sujo. Os vilões são a estupidez de uns e a ganância dos outros. Vilões conhecidos. Fora a tecnologia sofisticada, diz o filme, o século 23 repete o século 20. Pensando bem, repete todos os séculos de conquistas imperiais desde o 16º.

Jake Sully, o avatar que adere à resistência nativa e acaba liderando-a, é um herói também à antiga. Não falta, na sua exortação ao seu novo povo, o punho levantado e a frase desafiadora: “Esta terra é nossa”. Só faltou, mesmo, dizer: “O unobtainium é nosso!”

O que eu achei do filme? Achei sensacional.

Luis Fernando Verissimo.

sábado, 13 de março de 2010

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho



"Fulana está muito bem, noiva de um médico!". Era o que eu costumava ouvir as tias falarem quando queriam dizer das realizações das filhas. Namorando firme um "doutor" também era uma variante do mesmo tema que enchia de orgulho as senhoras daquele tempo. Mas isso era antigamente, quando eu era pequena e as pressões sobre a existência feminina e o altar eram imensas, certo? Mais ou menos. Parece-me que as exigências sociais para que as mulheres - e os homens, também - se adequem a padrões generalistas e reducionistas não saiu completamente da pauta.


A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Ok, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. "Só vão ter esse?!" as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.


Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros - isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina - uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a ideia de ter um companheiro de vida, mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.


Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos.


Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.

Por Maria Lucia Bandeira Vargas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Grão



E quando se amaram de fato não houve mais jeito.
Mesmo que resistissem àquele amor, aquele amor tornou-se mais forte que eles. E os embalou como se estivessem no meio do oceano num barco de papel. E as ondas os levavam do dia para a noite, da noite para as estrelas, das estrelas para o infinito.


E nem houve tréguas. O amor os consumia como se carregassem um vulcão e nenhuma chuva, nenhuma tempestade, nenhum tsunami conseguiria apagar aquele fogo.


Léguas que andassem e a paisagem seria a mesma, eternamente a mesma: uma árvore copada, florida de todas as flores conhecidas, de todos os matizes, de todas as formas, e sob esta árvore descansariam do encantado fardo que carregavam: o amor.
Feito crianças travessas, traquinas, alegres, divertidas, carentes, entusiasmadas, risonhas, palpiteiras, olhos brilhantes, risos de pôr-do-sol, sempre se amariam, descobrindo em si o jogo mais perfeito e o gozo de jogar.


Caso seus caminhos se desencaminhassem, perdendo-se pelos tempos em artimanhas de desamor; caso fossem seres pequeninos, premidos pelas circunstâncias, presos aos instintos; mesmo assim, famintos, mesmo assim, encantados, mesmo assim, lindos, cristalizariam a sua alegria no ato de amar.
E cada uma de suas palavras era amiga e transparente, pequena e colorida; leve feito ave, em paz consigo mesma; travessa e divertida. Seu teto, o afeto; seu chão, o coração. Chegava de mansinho, falando só de carinhos, e, mais que uma palavra, era um feixe de emoções, um riso cristalino, um sol de fevereiro, primeira e derradeira, tão simples e completa que se bastava. Ah, que essa palavra os embalava em suas noites de lua quando as estrelas vinham adormecê-los.


Traziam em seus olhos navios que nunca se perdiam das rotas; em suas mãos, avisos de eternas manhãs. A todos encantavam com sua paixão e, de tanto amar, dançavam pelos telhados dos corações. Nunca ninguém entendeu, mas por ser este amor demais colhiam, no espinheiro, uvas da paz.


Feito um turbilhão, uma canção que não tivesse fim, o amor tomou posse. Feito uma aflição que não tivesse solução e roesse o coração, o amor se instalou. Tomou-os de assalto, deles fez morada e alimento. Sem pedir licença, sem pagar ingresso, o amor transformou-se neles. Poderiam, então, acender as velas da manhã iluminando o mundo e mudar a cor do mar se quisessem; poderiam acalmar os vendavais da noite abrigando seus náufragos e fariam da água, vinho, se quisessem; poderiam apascentar os preguiçosos dias de verão agasalhando as cigarras e suas canções, se quisessem; poderiam acrescentar um pouco de luz às estrelas marinhas e alinhar os planetas se quisessem; tudo era possível por aquele amor.


Juntos, por mais que se amassem, mais se amariam; por mais que se dessem, sempre se dariam; até que fosse o dia em que se fariam sal da terra, sal; luz do mundo, luz; um, e apenas, grão.


Sérgio Napp.

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quinta-feira, 11 de março de 2010

Como agir ao ser abordado pela polícia



Código de Processo Penal, artigo 244: “A busca pessoal independerá de mandado, no caso de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar.” Para que esta abordagem seja correta, há uma série de orientações retiradas da legislação As polícias Militar e Civil realizam abordagens a partir das orientações contidas no. Abaixo, algumas dicas para o cidadão recortar e guardar no bolso, caso considere a abordagem abusiva e queira tomar providências. Confira:


• Identificação
O policial é obrigado a se identificar, mesmo estando fardado. Ele tem todo direito de pedir documentos, mas deve devolvê-los em seguida. Se desejar, a pessoa não é obrigada a fornecer identificação. Ninguém é também obrigado a portar documentos de identidade e a polícia não pode exigir isso. A Constituição garante no artigo 5º: ‘Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.’ No Brasil, não existe norma que obrigue a pessoa a trazer documentos de identificação, como na China.


• Não é obrigado
O cidadão não é obrigado a falar para onde vai nem de onde veio. A pergunta se tem passagem pela polícia pode ser ignorada, mas o ideal é que facilite a ação do policial, que apenas deseja coibir a criminalidade. Você não precisa também falar quem é ou o que faz. Ninguém é obrigado a produzir prova contra ele mesmo – nem o criminoso declarado, muito menos o cidadão de bem.


• Mulher
A mulher só deve ser revistada por policial mulher, caso contrário o policial homem responderá por crime. Em caso de fundada suspeita, que deve ser justificada, e na falta de policial mulher, o soldado homem pode investigar a pessoa de sexo feminino, mas jamais passar as mãos em partes íntimas.


• Constrangimento
A polícia não pode constranger ninguém, nem mesmo o preso em flagrante. Após a revista, ela deve permitir que a pessoa retorne à posição normal, tendo seus braços livres de qualquer posição exigida. Jamais deve ser exposta ou ferida sua dignidade com ações como tirar a roupa na rua ou gritar.


• Crimes comuns nas abordagens
Chamar alguém de preto ou tratar a pessoa com diminutivos é crime de discriminação. Se ameaçar bater, o policial pode ser indiciado por crime de tortura. Se mandar a pessoa ir embora sem olhar para trás, pode ser acusado de abuso de autoridade. O policial não pode gritar, humilhar ou ironizar nenhuma condição do ser humano, pois neste caso comete crime de abuso de autoridade e injúria.


• Familiar
O familiar pode questionar o policial a respeito do que está acontecendo e deve se identificar para isso. Durante a abordagem, em posição de busca, o cidadão não pode executar nenhuma ligação ou ato, mas em seguida pode realizar telefonema para quem quiser.


• Busca em carro
Pode ocorrer somente com fundada suspeita. E o proprietário tem o direito de acompanhar a busca do policial, inclusive requisitando testemunhas. No caso da abordagem para busca pessoal, o policial pode exigir que a pessoa coloque as mãos para cima até que execute a busca. E o policial deve permanecer com a arma em punho, de forma a reagir facilmente a um possível ataque.


• Algemas
A polícia só pode usar algemas se a pessoa se caracterizar como foragido ou estiver preso em flagrante delito. Algemar por outro motivo é crime de abuso de autoridade. Pessoas com deficiência mental não podem ser algemadas.


Caso você sinta que houve abuso de qualquer natureza, denuncie e processe os autores.

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Fonte: pesquisa.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O medo nosso de cada dia



O medo é um vilão teimoso, implacável. Em cada esquina ele espreita os fracos tornando-os indecisos e pessimistas. Visto pelo prisma do senso comum, sem nenhum princípio científico, concluímos existirem medos para todos os gostos: medo de tentar e fracassar; medo de amar e sofrer; medo de investir e perder... Medos, digamos, domésticos, aqueles que traduzem riscos de vida (perder a vida), por exemplo: não aprendo nadar porque morro de medo de afogar; medo de peçonhentos; medo de acidente, de incêndio, medo de pegar resfriado... Outros menos relevantes, medinhos bestas e enxeridos que também nos infesta o imaginário: o medo de dormir e ter pesadelo; medo de “mandruvá”; medo de levar uma queda e cair no ridículo, e daí por diante.
Odeio o medo, porque ele me persegue, ronda os meus passos desde a infância, apesar de crer não ter sido a criança mais medrosa do mundo, pois “não tinha motivos” para tanto. No meu acervo fantasmagórico havia somente umas centenas de assombrações que, combinadas, protagonizavam causos em noites alambradas de breu, mais uns trezentos e sessenta e cinco cachorros-doidos, ou seja, um para cada dia espalhando vírus mortais por todos os meus ermos caminhos. Entre outras alegorias folclóricas de todos os tamanhos e diversificadas configurações, atemorizava-nos ainda o fogo fátuo, a misteriosa mãe-do-ouro, que aparecia e sumia sobre as matas. Se nos outros o medo dói eu não sei, mas, em mim doía muito! Quando precisava fazer alguma coisa em lugares pouco iluminados, os preferidos dos fantasmas e que na roça eram todos, ia eu, tremendo e arrastando as pernas travadas; porém, na volta, era uma carreira só, com um frio doendo nas costas. Presumindo ser hereditário tal excesso de temor, investigo o passado...
Quando o tempo resolvia fechar as cortinas do firmamento, toda a biosfera estremecia temerosa de que o espetáculo final pudesse ser desentoado, e que os aplausos fossem abafados pelos gritos dolentes da natureza ferida. Os dissimulados clarões que principiavam muito distante não conseguiam camuflar a tempestade que prometia. E Noé, que se preparasse.
O pai desfiava o seu hinário em forma de assobio que começava quase imperceptível e ia se intensificando na medida em que a chuva se aproximava. Ele andava de um lado para outro dentro de casa, passando a mão na barriga. Eram os primeiros sinais do pavor que uma possível chuva braba lhe impingia. O ribombar dos trovões e os relâmpagos riscando o céu, já nos encontravam sentados, feito andorinhas no fio, no bancão de aroeira no salão dos “causos”. Mas, desta vez, seu Arismundo não chamara para nos contar nenhuma história, era para rezar mesmo! Somente os cânticos assobiados não foram suficientes para aplacar o temporal, nem os seus efeitos colaterais: o proeminente desconforto abdominal a que o submetia. De pé, em frente a nós, ia regendo aquela cantoria, em meio a fumaça dos morrões que eram queimados para São Jerônimo e Santa Bárbara, santos solicitados a cada susto de um estalo. Lá fora, os animais fremiam, espremendo-se uns contra os outros tentando se fazerem caber na varanda do paiol. O pé d’água caía com vontade. A casa agora era uma lagoa, e nós, ali, firmes na vigília, solidários ao nosso pai.
Não sei se, por falta de algum espaço desocupado em mim para caber medo de mais alguma coisa ou se nos valeram tantas orações, chuva é uma das poucas coisas que nunca temi. Chuva é cheiro de milho verde e cambuquira, é benção.


Maria Júlia Franco.

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O Preço de uma Vida





uma pausa para reflexão se faz devida.
Quanto vale uma vida? Será que, por não ser ainda alguém que contribui para a sociedade, por não ter voz suficientemente alta para se defender, o embrião ou o feto merece a morte?
O que pretendemos com tal posicionamento?
Recordamos que na China, a partir de 1981, entrou em vigor a lei de um único filho.
Desde então, tem crescido o número de crianças, sobretudo meninas, abandonadas ao nascer.
A jornalista Xinran, hoje radicada em Londres, conta uma de suas experiências dolorosas, do ano de 1990.
Era uma manhã de inverno. Ao passar por um banheiro público, uma multidão ruidosa estava rodeando uma sacola de roupas, entregue ao vento da estrada.
A jornalista se aproximou e recolheu a trouxinha: era uma menina de apenas alguns dias.
Estava azul de tão gelada e o pequeno nariz tremia.
Ninguém ajudou Xinran. Ninguém moveu um dedo para salvar a criança.
Ela a levou ao hospital, pagou pelos primeiros socorros mas ninguém ali estava com pressa de salvar aquela recém-nascida.
Somente quando Xinran apanhou seu gravador e começou a relatar o que via, um médico parou e levou o bebê para a emergência.
Uma enfermeira disse: Perdoe-nos a frieza. Há bebês abandonados demais. Ajudamos mais de dez, mas depois ninguém queria se responsabilizar pelo futuro deles.
A vida se tornou ali tão banal, a sorte das meninas recém-nascidas é tão incerta que se prefere deixá-las morrer.
Será que é algo assim que desejamos para nosso país? Que a vida em formação se torne de importância nenhuma, de forma a que possa ser eliminada, em pleno florescer?

Pensemos nisso
Hoje decide-se pela morte de milhares de brasileiros que nunca chegarão a ver a luz do sol.
Logo mais, poderemos ter leis que dirão quem pode ou não continuar vivo.
Um idoso que somente onera a sua família merecerá continuar a viver?
Um portador de anomalia grave ou deficiência mental?
Quem está desempregado, quem não contribui eficazmente para a sociedade!?

Para onde caminharemos?
Manifestemo- nos. Digamos aos nossos representantes que somos cristãos e prezamos a vida, que nos é dada por Deus, não competindo ao homem destruí-la, por livre deliberação.
Felizmente, para a pequenina chinesa, a voz da jornalista soou forte. Ela transmitiu a história em seu programa de rádio.
As linhas telefônicas foram tomadas por chamadas de ouvintes. Alguns muito zangados pela sua atitude de salvar uma vida. Outras, solidárias.
Três meses depois, a menininha foi entregue a sua nova família: uma professora e um advogado. E ganhou um nome: Better, que, em inglês, significa A melhor.
*
Recordemos que um dia, nós mesmos, frágeis, pequenos, aconchegamo- nos em um útero, rogando a um coração de mulher por vida e por amor.
E se hoje estamos escrevendo, lendo ou ouvindo este texto é porque nos foi permitido nascer.

Pensemos nisso.

Texto com base no cap. Os estrangeiros que adotam..., do livro O que os chineses não comem, de Xinran, ed. Companhia das Letras. Em 26.08.2008.

terça-feira, 9 de março de 2010

Decepções



E eu pergunto a você agora, já teve alguma decepção na vida? Dificilmente alguém passa pela existência sem sofrer uma desilusão, ou ter alguma surpresa desagradável em algum momento da caminhada.


Podemos dizer que o sabor de uma decepção é amargo e traz consigo um punhal invisível que dilacera as fibras mais sutis da alma.
Isso acontece porque nós só nos decepcionamos com as pessoas em quem investimos nossos mais puros sentimentos de confiança e amor.
Pode ser um amigo, a quem entregamos o coração e que, de um momento para outro, passa a ter um comportamento diferente, duvidando da nossa sinceridade, do nosso afeto, da nossa dedicação, da nossa lealdade...


Também pode ser a alma que elegemos para compartilhar conosco a vida, e que um dia chega e nos diz que o amor acabou, que já não fazemos mais parte da sua história... que outra pessoa agora ocupa o nosso lugar.


Ou alguém que escolhemos como modelo digno de ser seguido e que vemos escorregando nas valas da mentira ou da traição, desdita que nos infelicita e nos arranca lágrimas quentes e doloridas, como chama que queima sem consumir.


Enfim, só os nossos amores são capazes de nos ferir com a espada da decepção, pois os estranhos não têm esse trágico poder, já que seus atos não nos causam nenhuma impressão.


Assim, vale a pena algumas reflexões a esse respeito para que não nos deixemos atingir pela cruel espada da desilusão.
Para tanto, podemos começar levando em conta que, assim como nós, nossos amores também não são perfeitos.


E que, geralmente, não nos prometem santidade ou eterna fidelidade. Nunca nos disseram que seriam eternamente a mesma pessoa e que jamais nos causariam decepções.


Nós é que queremos que sejam como os idealizamos.
Assim nos iludimos. Mas só se desilude quem está iludido.
Importante que pensemos bem a esse respeito, imunizando a nossa alma com o antídoto eficaz do entendimento.


Importante que usemos sempre o escudo do perdão para impedir que os atos infelizes dos outros nos causem tanto sofrimento.
Importante, ainda, que façamos uso dos óculos da lucidez, que nos permitem ver os fatos em sua real dimensão e importância, evitando dores exageradas.


A ilusão é como uma névoa que nos embaraça a visão, distorcendo as imagens e os fatos que estão à nossa frente.
E a decepção nada mais é do que perceber que se estava iludido, enganado sobre algo ou alguém.


Assim, se você está amargando a dor de uma desilusão, agradeça a Deus por ter retirado dos seus olhos os empecilhos que lhe toldavam a visão.
Passe a gostar das pessoas como elas são e não como você gostaria que elas fossem.


Considere que você também já deve ter ferido alguém com o punhal da decepção, mesmo não tendo a intenção, e talvez sem se dar conta disso.
Por todas essas razões, pense um pouco mais e espante essa tristeza do olhar... Enxugue as lágrimas e siga em frente... sem ilusões.


Aprenda a valorizar nas pessoas suas marcas positivas.

Lembre-se de que cada um dá o que tem, o que pode oferecer.
Uns oferecem o ácido da traição, o engodo da hipocrisia, o fel da ingratidão, pois é o que alimentam na alma.
Mas, seja você a cultivar em seu jardim interior as flores da lealdade, do afeto, da compreensão, da honestidade, para ofertar a todos aqueles que cruzarem o seu caminho.


Seja você alguém incapaz de ferir ou provocar sofrimentos nos seres que caminham ao seu lado.

Andréia Mesquita.


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segunda-feira, 8 de março de 2010

A arte de escrever para amigos não identificados



Em seu polêmico escrito Regras para o parque humano, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, lembrando o escritor Jean Paul, explica que livros "são cartas redigidas a amigos, apenas mais longas". Com essa afirmação, Sloterdijk explicita precisamente a natureza e a função do que foi o humanismo na sociedade ocidental: "A comunicação propiciadora de amizade realizada a distância por meio da escrita". Isso significa que quando tomamos contato com os livros e escritos em uma determinada área do saber, estamos efetivamente nos aproximando e apropriando das "cartas de amizade" que os antecessores nos enviaram para que agora pudéssemos ter acesso ao que eles descobriram e sistematizaram. "Faz parte das regras do jogo da cultura escrita que os remanescentes não possam antever seus reais destinatários", expressa Sloterdijk, e continua: "Não obstante, os autores lançam-se à aventura de pôr suas cartas à caminho de amigos não identificados".



A leitura das longas cartas, por sua vez, depende da "boa vontade" e do interesse dos destinatários não identificados que podem ou não se sentir atraídos em ler tais mensagens redigidas em outras circunstâncias e que agora poderão ajudar a discernir certos fatos e problemas que perturbam o contexto atual. Por isso, Nietzsche tem razão quando diz que a escrita é o poder de transformar o amor ao próximo, ou ao que está mais próximo, no amor à vida desconhecida, distante, ainda vindoura. "A escrita não só estabelece uma ponte telecomunicativa entre amigos manifestos vivendo espacialmente distantes um do outro no momento do envio da correspondência", afirma Sloterdijk, "mas também põe em marcha uma operação rumo ao que não está manifesto: ela lança uma sedução ao longe, com o objetivo de revelar ao amigo desconhecido enquanto tal e levá-lo a ingressar no círculo de amigos"


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As preciosas reflexões de Sloterdijk sobre essa íntima ligação entre escrita e amizade estão ligadas á tentativa de explicar as razões pelas quais o humanismo se instaurou e se solidificou na tradição ocidental. De forma análoga podemos dizer que essa relação se estabelece no momento em que tomamos a decisão de publicar um conjunto de ideias que nos são aprazíveis e desejamos compartilha-las com outros "amigos não identificados". Não sabemos ao certo quais serão os destinatários desses escritos. Não sabemos como tais escritos serão recebidos e interpretados, muito menos a repercussão que os mesmos poderão ter em outros meios diferentes dos quais estamos acostumados. No entanto, nossa intenção de fundo é compartilhar com um público mais amplo, com destinatários não identificados, aquilo que, por um certo tempo, foi objeto de investigação restrita por quem tem paixão pelo pensamento filosófico.



O ato de escrever um texto é, antes de tudo, um longo processo de organização, leitura, investigação, disciplina, método e determinação. Escrever é por no papel um pensamento próprio, auxiliado por diversos autores ("amigos" do passado ou presente) que contribuem com seu pensamento sistematizado em forma de escrita. Conforme o dizer do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em seu livro A arte de escrever, "uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada". É por isso que a escrita filosófica requer um rigoroso processo de investigação, sistematização e elaboração que não se restringe ao simples domínio de técnicas artificiais de elaboração textual, mas se projeta na primorosa comunicação dialógica com amigos não identificados do presente e do futuro.

Altair Alberto Fávero.

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