A morte da redatora
Mita Diran, da agência de publicidade Young & Rubicam, após cumprir uma
insana jornada de três dias ininterruptos de trabalho aliado ao abuso no
consumo de energético, nos remete aos séculos XVIII e XIX, quando camponeses
tiveram de abandonar sua vida pacata das pequenas cidades medievais onde
exerciam e controlavam o ritmo de seu trabalho artesanal nas chamadas
corporações de ofício, face à concorrência desleal da máquina a vapor e dos
teares - pilares da revolução industrial.
Sem armas para
competir com a escala de produção e os baixos preços, viram-se obrigados a
mudar para as grandes cidades que começavam a se formar. A população de
Londres, como exemplo, passou de 800 mil habitantes, em 1780, para mais de 5 milhões,
em 1880. Lá chegando eram forçados a vender sua mão de obra aos burgueses
proprietários das fábricas, submetidos a condições de trabalho insalubres,
fossem homens, mulheres e até crianças em jornadas semanais que chegavam a
atingir 80 horas semanais.
Apesar dos
movimentos Ludista e Cartista que lutavam pelo fim da exploração infantil,
regulamentação do trabalho feminino e folga semanal, pouco se avançou nas
relações trabalhistas, gerando o que conhecemos como sistema de produção em
massa no início do século XX. Teóricos como o americano Taylor e o francês
Fayol, e empresários como Henry Ford e seu modelo T, serviram de inspiração
para Charles Chaplin criar o filme Tempos Modernos.
A película mostra
de maneira caricata a alienação dos funcionários, forçados a cumprirem longas
jornadas de trabalho, ditadas pela velocidade da linha de produção e pelos
ferozes capatazes da época. Obrigados a seguirem o ritmo em movimentos
repetitivos, não raro desenvolviam problemas psicológicos e tiques nervosos
tais como o observado por Chaplin ao deixar seu posto de trabalho, caminhando
como se ainda apertasse parafusos.
O foco estava no aumento da produtividade,
que crescia a taxas nunca vistas.
Em meados dos anos
30 começa a surgir uma luz no fim do túnel para os trabalhadores, através da
experiência de Hawthorne, patrocinada pelo Conselho Nacional de Pesquisas dos Estados
Unidos em uma fábrica da empresa Western Eletric Company. Conduzida pelo
pesquisador Elton Mayo, tinha como objetivo verificar a influencia da iluminação
sobre a produtividade dos empregados. Para conduzi-la, um grupo de
trabalhadoras foi separada e utilizada como grupo de controle.
Foram oferecidas a
este grupo diversas vantagens além da iluminação, tais como pausas para o
lanche, folgas semanais e horários reduzidos de trabalho, sempre comparando com
a produtividade, a qual obviamente subia cada vez que se introduziam mais
benefícios.
Curiosamente ao se retirar todas as vantagens concedidas a
produtividade subiu como nunca, intrigando os pesquisadores que aguardavam
reação contrária.
Descobriu-se
através de entrevistas em profundidade, que o principal fator para o aumento da
eficiência estava na formação dos grupos informais. Com maior liberdade e menor
pressão, as trabalhadoras criaram vínculos de relacionamento que antes não eram
possíveis em face da aridez das condições de trabalho. Unidas, felizes e com um
melhor ambiente de trabalho, demonstraram pela primeira vez a importância no
cuidado com as pessoas, o que hoje parece algo óbvio e desejável às empresas
que procuram reter os melhores talentos.
Colocado este pano
de fundo, voltemos ao caso da redatora. Cresci vendo meu pai chegando muito
cedo ao escritório, literalmente acendendo e apagando as luzes durante mais de
30 anos na mesma empresa.
Pertencente à geração silenciosa, tinha como
características o trabalho árduo, a paciência, o conformismo e o respeito,
sobrepondo o dever ao prazer. Creio seja por isso se orgulhava de nunca tirar
férias. Nascido no final dos anos 60, portanto membro da geração X, sempre fui
mais cético, informal e avesso a hierarquia, promoções por tempo de serviço e
horários pré-determinados.
Face as diferentes
gerações, nossos conflitos eram sempre pontuados por diferenças de pontos de
vista, acentuados em minhas trocas de emprego em busca de melhores
oportunidades ou insistência em tirar férias de 30 dias todos os anos, algo
inimaginável para um silencioso.
Hoje não mais discutimos, creio pelo fato de
já estarmos ambos ultrapassados em relação a nova geração Y. Inteligentes,
rápidos, ousados e multitarefas querem mudar o mudo, aliando trabalho e vida
pessoal em projetos que lhes tragam prazer, tais como os jovens do Vale do
Silício.
Por fim, a morte de
Mita Diran, aliada à pergunta ingênua de minha filha de dez anos sobre se ainda
havia escravidão na Indonésia, me fez repensar os conceitos e valores que venho
incutindo com meus discursos a uma integrante da nova geração Z.
Pontuar os
pontos fortes e fracos de cada uma das escolhas, as consequências em sua vida
pessoal, respeitando as diferenças entre gerações talvez seja o caminho mais
indicado, reforçando sempre os malefícios dos excessos, seja em frente a um
tear ou um notebook.
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