domingo, 4 de julho de 2010

Coisas da língua portuguesa



Língua é coisa muito interessante e surpreendente. Vive e tem sua história, inçada de mudanças e de sobrevivências. O que mais surpreende na história das línguas são as sobrevivências. Vocábulos e locuções e formas às vezes escapam durante séculos às transformações que a língua vai sofrendo. Curioso, por exemplo, o caso da preposição com. Na sua clássica Gramática Latina, Napoleão Mendes de Almeida informa: “Cum – Exprime muitas idéias: concomitância, concordância, reciprocidade, ligação, reforço etc. Antigamente se escrevia com e é assim que aparece na composição”. Atualmente, a preposição com se pronuncia, o mais das vezes, cum. Quer dizer isso que a forma cum vem sobrevivendo à evolução ocorrida para a forma com. A maioria das pessoas diz cum em vez de com: “cum quê?”, “cum força”, “cum jeito”, “cum modos”.
No caso do advérbio de negação não, patenteia-se a força determinativa do uso predominante. Nas outras línguas filhas do latim, esse advérbio, evoluindo do latim non, assumiu formas diferentes. Em espa-nhol, no. Em francês, non. Em italiano, no (mas também non). As outras línguas europeias não oriundas do latim, mas pertencentes ao mesmo tronco indo-europeu (principalmente o alemão e o inglês), possuem esse advérbio bem parecido com a forma, falada e escrita, das línguas neolatinas: no em inglês, nein ou nicht em alemão.
O não português é o non do latim. Só que este non latino evoluiu também, na passagem para as línguas novilatinas, para num em muitas situações do seu emprego na linguagem falada. No Brasil é um fato de todos os momentos da fala da língua portuguesa. Todo mundo diz, em grande número de situações, num em vez de não. Mesmo pessoas cultas, bem educadas, pertencentes às camadas econômica e culturalmente superiores da sociedade falam assim: “num quero”, “num vou”, “num vi”. O advérbio só é empregado – pronunciado – na forma, digamos, culta, não em duas situações e casos: como reforço da frase ne-gativa (“num quero não”, “num vou não”, “num vi não”) ou como resposta lacônica a uma pergunta: “você quer?”, “não”. Se o respondente espichar a resposta, dirá certamente: “não, num quero não”.
De modo que escrever num em vez de não, sendo ato de fidelidade do escritor à forma predominante desse advérbio na fala do povo, é ato normal que num deve causar estranheza senão a ouvidos e olhares um tanto desavisados.
Uma das correntes linguísticas existentes em toda cultura é a que preconiza para a ortografia o sistema fonético. O escritor paulista Mário de Andrade (que se referiu certa vez à língua portuguesa como “a nobre língua do ão”), na sua prática mo-dernista, fiel ao critério fonético, escrevia milhor em vez de melhor, si em vez de se, e assim por diante.
O uso popular predominante nem sempre, porém, dever ser aceito. É o caso do adjetivo diuturno, ao qual a maioria das pessoas (mormente os políticos), enganada pela aparência e sonância do vocábulo, atribui significação errônea.

Alaor Barbosa.

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Educação e tecnologia no contexto das trocas humanas



A escola deve integrar as tecnologias de informação e comunicação porque elas já estão presentes e influentes em todas as esferas da vida social, cabendo à escola, atuar no sentido de compensar as terríveis desigualdades sociais e regionais que o acesso desigual a estas máquinas está gerando. - Maria Luiza Belloni
Diante da revolução tecnológica, as tecnologias da informação ocupam lugar de destaque na transformação dos modos de vida na medida em que engendram potencialidades e limitações. A educação formal precisa inserir em sua pauta a problematização dessa realidade que já povoa o cotidiano de boa parte de educandos.
Em face desse quadro, faz-se necessário compreender as relações entre as tecnologias da informação e a educação, pois o que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta. A revolução informacional abalou as antigas relações espaços-temporais ao subverter distâncias e períodos de tempo. Sem embargo, os diversos campos sociais não têm se apropriado dos meios informacionais para enfrentar a ameaça premente à reprodução, produção e identidade humanas.
Não é de se admirar que a educação formal insista em desconsiderar a pertinência das relações entre as tecnologias da informação e processos educacionais? No que se refere ao campo da educação, é imprescindível instituir uma conexão com as tecnologias da informação, o que beneficiará a todos os atores do processo educativo. Não obstante, há que se ponderar acerca da rápida multiplicação, especialmente nas periferias, das chamadas lanhouses – estabelecimentos que propiciam, a preços acessíveis, o acesso à internet.
Os sistemas educativos precisam reconhecer sua responsabilidade frente ao desafio de promover o contato e a crítica das tecnologias da informação. O discurso, amplamente difundido, que impõe à mídia um caráter nocivo precisa ser superado por uma nova crítica reconhecedora de que esse trabalho é condição sine qua non para a educação para a cidadania.
Neste contexto, quais relações a educação pode continuar tecendo com as novas tecnologias da informação na promoção de modos de vida plena? Haveria a possibilidade de mobilizar as forças decorrentes da revolução informacional para a reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?
A integração da educação com as tecnologias da informação é antes um processo de troca humana, de produção, de circulação, utilização e reflexão acerca das diversas mensagens. Não mais em territórios fechados e demarcados por fronteiras epistemológicas, mas procedendo ao exame e criação de relações potencializadoras de infinitas conexões com a globalidade da vida.
Ao propor neste artigo uma reflexão acerca da educação e suas relações com as tecnologias da informação, intento promover o entendimento da complexidade da educação – constituída por amplos e complexos processos – e suas relações com as tecnologias da informação. A educação é compreendida como intimamente ligada à percepção da complexidade das transformações histórico-sociais que surgem em consequência das mutações técnico-científicas, em especial da notável revolução das tecnologias da informação.
A questão colocada pelas tecnologias da informação à educação é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta. Ou seja, é fato que toda essa revolução informacional muda drasticamente as relações espaços-temporais e torna disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Por outro lado, as forças sociais têm se demonstrado incapazes de se apropriar desses meios informacionais no desenvolvimento de potenciais humanos para fazer frente a um mundo que se deteriora lentamente. Assim, o desafio educacional da atualidade consiste em revisitar paisagens e (des)construir territórios há muito esquecidos, na tentativa de justificar a pertinência do uso das tecnologias da informação na ambiência educativa.

Márcia Carvalho.

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O desafio de ser líder



Tenho observado, de uns tempos para cá, o comportamento exacerbado e competitivo ao extremo de muitos jovens no ambiente de trabalho.
Há quem argumente que esse modo de ser – ansioso, aflito, às vezes até agressivo – é fruto inevitável dos tempos atuais. Se isso é verdade, precisamos encontrar formas para contê-lo, evitando, assim, que o ambiente na empresa degenere em carreirismos e conflitos de egos.
A melhor forma para se combater este fenômeno está no reforço à prática da parceria, na valorização do trabalho em equipe e na convergência de todos para servir ao cliente, pois é nele que está o poder e a hierarquia. As disputas internas não levam a nada porque os resultados estão sempre fora da empresa.
Profissionais jovens e ambiciosos precisam demonstrar, antes, o amadurecimento necessário para que possam assumir posições de liderança no futuro. Muitos não se dão conta disso. O indivíduo demonstra ter maturidade, tanto pessoal quanto profissional, quando conjuga senso crítico e sabedoria – que são características de quem se predispõe a adquiri-las.
Quem almeja a posição de líder só a terá se demonstrar as aptidões para isso ainda enquanto for um liderado. Como esta pessoa se comporta quando está nessa condição? É respondendo a tal questão que se descobre como ela agirá no momento em que assumir a liderança.
A construção de um plano de vida e carreira passa pela coerência e pela consistência de atitudes que legitimam a aspiração do subordinado de chegar a dirigente. Pressa e atropelos na ânsia de galgar postos impedirão o indivíduo de extrair de cada função que exercer a soma de ensinamentos que esta pode lhe proporcionar.
Empatia, enfoque na contribuição, discernimento e lealdade são condições para uma relação positiva entre o líder e seus liderados. Mas isto só dá certo quando estes últimos agem conforme deles se espera, e o líder, principalmente se recém-chegado a essa posição, é capaz de assumir com serenidade as responsabilidades que lhe cabem sem precisar provar o tempo todo do que é capaz, nem usar continuamente a autoridade que tem. Se age dessa maneira, é porque sua liderança já se esvaiu.
A convivência nas empresas se dá sempre entre três gerações – jovens de talento, executivos maduros e os mais idosos e experientes, cujo papel primordial é educar. Para ser produtiva, essa convivência tem que ser harmoniosa e, para que haja harmonia, o diálogo entre elas precisa ser aberto, fluido e permanente, pautado pela humildade, disciplina, respeito e confiança. Quando isso acontece, todos ganham.


Emílio Odebrecht.

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sábado, 3 de julho de 2010

Espiritismo e ciência não se contrapõem




Nos tempos medievais, havia o consenso de oposição entre fé e razão. Tudo era explicado pelas imposições religiosas. Na Renascença, ocorreu a revolução do pensamento científico, mormente a partir de Galileu e, posteriormente, de Newton. Nos fenômenos espirituais defrontamos com limitações no que se refere à experimentação científica. Esta classe de fenômenos é, ainda, muito pouco estudada, quando comparada com outros objetos de estudo das ciências. Para muitos, apesar de ainda polêmico, há coexistência entre Ciência e espiritualidade, configurando-se em novo paradigma acadêmico. A rigor, os inconcebíveis fenômenos da percepção extrasensorial parecem ser menos absurdos, comparados aos inconcebíveis fenômenos da física. Kardec não se deixou levar na onda da psicose de adequação ao paradigma materialista, positivista e reducionista das Ciências do Século XIX.


O nó da questão é que o "espiritual", no senso comum, tende ao "sobrenatural", desta forma, não pode ser testado. Alguns fenômenos quânticos possuem a característica de serem imprevisíveis e "imateriais". Tem-se comprovado a participação da consciência do observador como elemento determinante no desenrolar de fenômenos físicos.
Para a teoria quântica, a matéria nem possui uma existência física real, mas uma probabilidade à existência. O que faz a matéria emergir do universo probalístico, para irromper como onda ou partícula, é a consciência do observador. A consciência, mais do que interferir sobre a matéria, é o elemento que torna possível a própria existência da matéria analisada e, como ela não pode ser causa e efeito ao mesmo tempo, é necessário admitir que consciência e matéria possuem naturezas distintas.


Quando citamos ciência e espiritualidade, não estamos referindo a coisas incompatíveis e opostas. Todavia, devemos reconhecer que o objeto fundamental do Espiritismo não se pode comparar ao das ciências tradicionais, salvo nas interfaces ou nos pontos comuns. O Espiritismo toca domínios, até agora, reservados às religiões. Porém, em metodologia, o Espiritismo difere, radicalmente, das religiões, porque rejeita a fé dogmática, a crença cega, as práticas ritualizadas, o culto exterior. Se não é justo que a Ciência imponha diretrizes à religião, não é razoável que a religião obrigue a Ciência à adoção de normas inconciliáveis com as suas exigências do raciocínio.


A Ciência, sem a Revelação espirita, não consegue explicar alguns fenômenos só pela concepção materialista. A Doutrina Espirita, sem o contributo da academia de ciência, seria mais limitada para a comprovação dos fatos “imateriais”. Por isso urge que exista alguma coisa para preencher o vazio que as separava espírito e matéria, um traço de união que as aproximasse; esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal.


Por isso Allan Kardec disse que O Espiritismo, caminhando com o progresso, não será jamais ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, ele se modificará sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará.

Jorge Hessen.

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Seu filho também mente?



Todo mundo mente. Sim, às vezes nós tentamos nos convencer que habitamos um mundo idealizado onde a mentira não teria lugar, mas só de tentarmos dizer que não mentimos já de fato, contamos uma mentira. Talvez a maior delas.
A mentira, tanto eu quanto o leitor devemos admitir, é uma estrutura social e deve ser aceita em vez de tão maltratada. Ei, não estamos dizendo aqui que devemos começar a mentir desesperadamente. Até porque a maioria dos estudiosos do comportamento humano afirma que ninguém precisa de ajuda para mentir e que todo mundo, o dia todo, mente por variados motivos. Mentimos para não ter que alongar uma história desnecessária, mentimos para não ofender alguém (lembra da sua amiga gorda que pensa que emagreceu?), mentimos para nos sentirmos mais interessantes e, sim, mentimos para nos defender.
Claro que muitas vezes, mentimos sem ter a intenção de mentir. O que quero aqui é falar desse uso da mentira. Aliás, qualquer pessoa um pouco lúcida sabe que a mentira está impregnada nas relações sociais e que ela é um recurso do ser humano. Pensemos, em uma criança como exemplo de ser humano primário. A criança só entende rudimentos do comportamento social mas é capaz, quando quebra algo que desconfia ser importante, de inventar que não foi ela ou até mesmo dizer que foi outra pessoa. Não por maldade, é importante dizer, mas para defender-se de um possível castigo, que ainda que muito jovem, já considera provável. Logo, aqui, vemos a mentira usada como estratégia. Muitas vezes não mentimos por querer subjugar o mundo ou fazer com que todos se tornem menores que nós, estamos apenas tentando nos defender.
O problema, e é claro que existe um problema, reside na diferença, evidentemente sutil, que existe entre uma apologia da mentira pela mentira e a mentira como recurso de uma convivência social pacífica. Bem, essa crônica, amigos, não é uma apologia à mentira. Ela é, antes disso, uma apologia a olharmos a mentira sem mentira alguma. Ver a mentira como ela é, afinal, não dá para dizer a verdade o tempo todo. Acho que o leitor, inteligente, perspicaz, astuto, pode, com sua capacidade mental altamente sofisticada, me entender.
Mas, um momento, será que todo leitor é assim? Claro que não. Nem todos os leitores são pessoas dignas de apreço intelectual mas isso não faz com que todas as horas eu acuse as pessoas que não admiro com meu mau humor. E isso, digam o que quiserem, não se trata de mentir aos leitores mas sim, absolutamente, de querer conviver. Todo mundo sabe que gente que fala o que pensa o tempo todo, em ambiente de trabalho é excluído e na vida pessoal quase não tem amigos. Nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir a verdade. Podemos até, ocasionalmente dizê-la, mas devemos ter certeza de que o ouvinte está preparado. Eu, particularmente, hoje sou mais preparado para verdade do que já fui e foi bem duro perceber que durante muito tempo eu mentia para mim mesmo a meu respeito. Mas que se há de fazer? Um dia, mesmo que ninguém o diga, a verdade bate na sua cara e cabe à gente abaixar a cabeça. Só peça aos céus, e faça esforço para você não ser o tipo de pessoa inconveniente que traz aquelas verdades que, meu amigo, ninguém faz questão de conhecer, pois você vai sair do adjetivo de verdadeiro para o epíteto de “dono da verdade”, que ninguém quer ter.
No entanto, o que mais preocupa na relação que a mentira tem com a sociedade é o fato de que, na tentativa de entender a mentira como uma coisa negativa acabamos por não querer enxergá-la nem em nós e muito menos nos outros. Todos são capazes de mentir, menos nós e os nossos. Essa visão romanceada de nós mesmos ou de nossos parentes pode trazer certas frustrações, às vezes, com problemas sérios. O pai que se nega a perceber que o filho mente, como qualquer pessoa, pode estar perdendo a oportunidade de ensiná-lo algo valioso: a mentira não deve ser usada em qualquer circunstância.
É muito comum, e quem é professor sabe disso, que os pais hoje valorizem mais do que devem a palavra dos filhos. De forma alguma estou defendendo aqui uma família em que os pais não confiem em seus filhos. Mas ninguém pode dizer que o próprio filho não mente porque isso é humanamente impossível.
Se a mentira é, em algumas circunstâncias sociais, aceita e até recomendada para o bom convívio, ela deve ser observada na criança e no adolescente para que não se torne um comportamento vicioso e negativo que faça com que aquele indivíduo tente tirar proveito das mais variadas situações e principalmente dos outros.
É muito comum que pais chamados a qualquer escola digam que deve haver algum equívoco pois seus filhos não mentem, não falam palavrões, desconhecem termos vulgares que se relacionem ao ato sexual, jamais ofenderiam um colega, maltratariam um funcionário da escola ou agiriam com violência em relação à quem quer que seja. Nossos filhos, nossos anjos. E anjos não fumam no banheiro, não usam drogas, não faltam à escola para beber, não mentem sobre provas. As evidências são tantas que é comum que alguns pais perguntem: Você está mesmo falando do meu filho?
A questão aqui não é, repito, desconfiar dos filhos mas averiguar enquanto é tempo, pois a mentira é um caminho fácil. Parece um exagero, mas vocês se lembram quando o pai de um dos agressores da doméstica Sirley Dias disse em rede nacional que não queria que o filho fosse preso porque ele era uma criança? Entendem? Uma criança que é capaz de sair de um carro, roubar a bolsa de uma mulher e chutar várias vezes a cabeça dela, bem como outras partes de seu corpo. É evidente aqui que a visão que o pai tinha de seu filho e quem seu filho era de fato, são claramente diferentes.
Cabe a cada um, observar o filho, não com indiferença cruel, nem como romanceados floreios, mas apenas como ele deve ser olhado e será olhado pelo outros: um ser humano. E assim, como ser humano que é, sujeito a qualidades e virtudes, mas também defeitos e pecados.



Prof. Caetano Mondadori.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Metamorfoses





Caríssimo e curioso missivista, por aqui, na mesma. Já que Deus é brasileiro, a gente daqui vive de destruir a obra Eterno, crente de saber que sua generosidade sempre virá corrigir as emendas e consertos humanos. Disto ninguém duvida. É sabido que Deus criou o mundo, mas deu aos cirurgiões plásticos e aos publicitários e agentes de comunicação o encargo de aperfeiçoá-lo. Não raras vezes, refazê-lo. É o que sucede nos correntes dias de futebol e política. O normal na momice do carnaval vira cena diária.
As máscaras vão sucedendo os rostos, os trejeitos e esgares vão tomando o lugar das antigas expressões. E a metamorfose faz velhos ogros, antigas bruxas de aparência parva e afeiçoados grosseiros amanhecerem com asas fosforescentes de borboleta. Um puxado aqui, um botox ali, um lifting em outra parte e a pupa original vai desentranhando a libélula ou mariposa para a luz dos olhos embevecidos. É claro que isso é invencionice da natureza. É pura arte (e manha) humana. Assim como um Cristiano Ronaldo ou um Cacá ocupa a tela inteira da alta definição, mesmo quando erra a jogada, no gramado político, as luzes revelam o atleta jocoso que por trás do maquiado rosto, da adoçada voz, do ameigado olhar vai enfeitiçando a turba com promessas e paraísos e edens. Como vê, nada mudou por aqui. Antes foi se aperfeiçoando a antiga farsa. Nestes dias, a felicidade é geral. Enquanto as enchentes arrasam a república das cestas básicas, policiais, professores e outras categorias fazem greves, paralisações durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol. Mata-se no trânsito, mata-se às escondidas, desaparecem mulheres sem qualquer lirismo e, quando retornam já são cadáveres. Depois tudo vira estatística. Se dermos crédito às estatísticas de diminuição da violência e dos crimes, vamos descobrir que os mortos estão renascendo mais cedo do que promete a metempsicose. Depois, com a quantidade de polícias, juízes, promotores de justiça, corregedores, investigadores e peritos não resta lugar para marginal, todos os postos estão ocupados e nenhum anti-social se atreve a vir a à rua sem dar de cara com um homem da lei. Se, ainda que por acaso, um se atreve a cometer o delito, escapando à vigilância dos defensores da sociedade, logo estará em maus lençóis.
Agarrado, processado, julgado e colocado em pedagógica purgação, para não mais atentar contra nossa paz nazarena. Por isso, as vítimas e seus parentes órfãos, desirmanados, desconjugados ou desfiliados não precisam chorar, nem bater às portas dos distritos e juizados e tribunais. Com muita certeza, o fato infeliz, logo será esquecido. Talvez vingue na memória de uma melodia funque, pagode ou samba. Depois da copa do futebol, virá a das eleições, depois os desfiles de carnaval. Lavaremos as mágoas. Nada de pesar. Como um rio já cantado a vida irá passando. Só enchentes de cor e luz, só o vôo das borboletas em sua soberba glória de bisturi e silicone. Queria que visse isso. Talvez se animasse a desembarcar em nossa futurosa terrinha. Até breve.

Aidenor Aires.

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Governadora sanciona Lei que combate bullying em escolas gaúchas



A governadora Yeda Crusius sancionou a Lei 13.474, aprovada por unanimidade na Assembléia Legislativa, que prevê políticas públicas contra o bullying nas escolas de ensino básico e de educação infantil, privadas ou do Estado, em todo o Rio Grande do Sul. Com isso, as instituições de ensino desenvolverão a política antibullying. A Lei foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE), na terça-feira (29). "Com esta Lei estamos agindo fortemente no sentido de dar um basta a este problema social, que tem provocado distúrbios psicossomáticos em crianças vítimas", explica a governadora Yeda Crusius.

O bullying é um termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully - tiranete ou valentão) ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo (ou grupo de indivíduos) incapaz(es) de se defender. Também existem as vítimas/agressoras, ou autores/alvos, que em determinados momentos cometem agressões, porém também são vítimas de bullying pela turma.

Pela nova Lei, considera-se bullying qualquer prática de violência física ou psicológica, intencional e repetitiva, entre pares, que ocorra sem motivação evidente, praticada por um indivíduo ou grupo de indivíduos, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidar, agredir fisicamente, isolar, humilhar, ou ambos, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.

Política antibullying
O texto da proposta lista como práticas de bullying as ações repetidas de ameaças e agressões físicas como bater, socar, chutar, agarrar, empurrar; submissão do outro, pela força, à condição humilhante; furto, roubo, vandalismo e destruição proposital de bens alheios; extorsão e obtenção forçada de favores sexuais; insultos ou atribuição de apelidos vergonhosos ou humilhantes; comentários racistas, homofóbicos ou intolerantes quanto às diferenças econômico-sociais, físicas, culturais, políticas, morais, religiosas, entre outras; exclusão ou isolamento proposital do outro, pela intriga e disseminação de boatos ou de informações que deponham contra a honra e a boa imagem das pessoas; e envio de mensagens, fotos ou vídeos por meio de computador, celular ou assemelhado, bem como sua postagem em blogs ou sites, cujo conteúdo resulte em sofrimento psicológico a outrem.

Já a política antibullying terá como principal objetivo reduzir a prática de violência dentro e fora das instituições e melhorar o desempenho escolar, promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito aos demais. Da mesma forma, servirá para orientar as vítimas e seus familiares, oferecendo-lhes apoio técnico e psicológico, de modo a garantir a recuperação da autoestima e a minimização dos eventuais prejuízos em seu desenvolvimento escolar. Além disso, disseminar conhecimento sobre o fenômeno bullying nos meios de comunicação e nas instituições, entre os responsáveis legais pelas crianças e adolescentes nelas matriculados.

Agência de notícias do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Para começar até que é uma boa notícia, mas é preciso muito mais que isso!!!

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A primeira vez e o primeiro porre a gente nunca esquece



A primeira vez e o primeiro porre são como- para as mulheres- o primeiro sutiã, a gente nunca esquece. Assim diria Washington Olivetto. No caso delas- da primeira relação- sabem o nome, o sobrenome do cidadão e jamais se esquecerão do dia, mês e ano. Podem até demorar alguns minutos, esmiuçando a memória, mas logo se lembrarão dos detalhes. Já para os homens, a coisa é bem diferente: lembram-se que fora com uma empregada de sua casa ou da vizinha e não tem a menor idéia do nome e nem se lembra como era ela; ou ainda, que fora com uma amiga de uma irmã que caidinha por ele e se deixou levar e a coisa aconteceu. Poderá até lembrar do nome da "vítima", porque a irmã atirou-lhe na cara por diversas vezes,- ameaçando contar para os próprios pais- mas não sabe o sobrenome e muito menos a data. Ou ainda, que foi num bordel, levado pelo irmão mais velho. Estou me referindo a coisas de trinta anos ou mais, porque hoje, a coisa é bem estranha. O cidadão nem sabe o que fez depois que saiu da boate. Ela muito menos.
No meu caso, a primeira vez não houve nada de diferente: Tímido, com 13 anos, mas com testosterona saindo pelas orelhas e, com os amigos contadores de vantagens que sustentavam que já haviam experimentado o sexo oposto- naturalmente, eu me sentia muito desconfortável, por só ficar na vontade. Primeiro filho, não tinha irmão mais velho, a quem recorrer. Então, um dia, resolvi dar um basta na precisão. Trabalhava, no cinema de minha avó, em Rio Verde, um amigo da família, de nome Evilázio com quem tinha horas de papo e um dia, provoquei um assunto que se referia a sexo. Ele, desconfiado da conversa sem-pé, sem-cabeça, perguntou-me se eu já havia me deitado com uma mulher e eu, para me manter na condição de machão- disse-lhe que sim. O que era uma tremenda mentira. E ele me disse " Então, vamos mais tarde à putaria?!"- desafiando-me a ir junto. Meus pais estavam em Goiânia. Lá fui eu, com as pernas tremulando.
Lá chegando, adentramos numa casa onde estavam seis ou sete mulheres bebendo em meio a fumaças de cigarro, sob uma luz pálida. Evilázio, experiente na arte da putaria declarou a todas:
- Este meu amigo, é virgem! Quem quer tirar o cabaço dele?- perdoa-me, o leitor, pela vulgaridade das palavras, mas era o linguajar do lugar e da época.
Risos à parte, uma mulher, de pele clara, cabelos loiros, quarentona que para época, seria o equivalente a sessentona de hoje- pois estava um tanto desgastada- de pronto e em alto e bom som, gritou:
- Eu!- E levantando-se da cadeira, pegou-me pelas mãos: "Vem cá, meu anjo!" E me arrastou para um quarto escuro e sob uma luz azul ainda mais pálida- não era a luz negra de hoje, mas uma lâmpada pintada de azul- e começou a se despir e eu tremia com uma vara verde... Quando vi a mulher toda nua, só pedi que Deus me ajudasse e Ele piedosamente me ajudou. De lá, saí com o ego maior do que uma jaca! A partir daí, fiquei em paz comigo! Não sei o nome dela, não me lembro do seu rosto, da data da aventura libidinosa e nem de mais de algum detalhe, mas o preâmbulo do acontecido está guardado no mais recôndito de minha memória.
O primeiro porre, 1969. Tinha eu, 15 anos e havia mudado para Goiânia para cursar o científico no Ateneu Dom Bosco. Na Semana Santa, eis me de volta a Rio Verde como um rapazinho metido a moderno: os cabelos descendo pelas orelhas, roupas da moda e sapatos mocassins (cidade grande vende ilusões para o interiorano!) Havia um bar na Rua Rafael Nascimento que era o bar da moda, de então. Ali, enveredei-me com alguns amigos, com algumas garrafas de cerveja e me esqueci da hora e da rigidez da educação de meu pai. Nunca havia chegado em casa depois das dez e já se passava da uma da manhã. Não mais que de repente, meu pai, chega ao bar, de pijama, e me chama com a voz nada amigável. Levantei-me, tonto, e fui ao seu encontro. Tentei dialogar com ele com a voz enrolada e com o bafo pra lá de alcóolico. Não tive guarida. O amigo e doce professor Clóvis, transformou-se numa fera e levou-me para casa, carregando-me pelas orelhas. Cheguei a ficar alguns centímetros acima do chão- diziam meus amigos que viram- às gargalhadas- meu pai me guiando pelas orelhas! Um vexame total e inesquecível! Até hoje, meus amigos ainda zombam de mim por este vexame. Não me importo, era o meu pai! E que saudades tenho dele! E assim, entre estas e outras lembranças, fui me tornando o homem que hoje sou.

Tadeu Nascimento.

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Que dizem as estatísticas?



Imagine-se no lugar de um paciente que, em uma consulta de rotina, acaba de receber do seu médico particular um diagnóstico nada alentador. Um tipo raro de câncer, com nome esquisito e cura, ainda, desconhecida, por exemplo. Depois de ouvir evasivas e palavras de esperança em tratamentos ditos experimentais, é natural que você, sendo uma pessoa relativamente esclarecida, ao chegar em casa, busque uma consulta com o oráculo do momento: São Google. E o que o oráculo dos novos tempos diz, provavelmente, não ajudará muito. Não sendo você um especialista da área médica, inclusive, nesse caso, ao se deparar com informações tipo " é incurável, com uma mediana de mortalidade de apenas oito meses após a descoberta", a situação pode ficar ainda pior, tirando-lhe de vez qualquer expectativa.
Após alguns minutos de hesitação, recomenda-se cautela com qualquer conclusão apressada sobre a provável data da sua morte. Inclusive por que, mesmo entre pessoas que cursaram uma disciplina de estatística descritiva, poucas têm capacidade de avaliar o que esse valor (ou outro qualquer) de mediana realmente significa. Temos, em geral, uma visão errônea das chamadas medidas de tendência central, cujas mais comuns são a média e a mediana (há também a moda). No caso da média aritmética, somam-se todos os itens e divide-se o resultado pelo número de itens. No exemplo, seriam somados todos os tempos de vida dos pacientes desde que tiveram esse tipo de câncer diagnosticado e dividido pelo número de casos, resultando nos oito meses referidos. Por sua vez, a mediana representa o ponto situado exatamente na metade da curva de distribuição de tempo de vida dos pacientes amostrados. E significa que a metade das pessoas que tem esse tipo de doença diagnosticado vive menos que oito meses e a outra metade mais.
O importante é tentar identificar quais as suas chances de viver mais. Aí podem entrar questões como a idade, o diagnóstico precoce da doença, a possibilidade de contar com tratamento médico adequado (de preferência o melhor que existe), a sua vontade de viver, etc. A forma da distribuição dessa estatística, tempo de vida após diagnóstico, também é fundamental, incluindo-se as medidas de variação ou dispersão dos dados. Em geral, esse tipo de distribuição não é simétrico, ou seja, igualmente arranjada nos dois lados do valor central, a exemplo da curva normal ou de Gauss, que tem forma de sino. Nesse caso, sob o ponto de vista do paciente fictício, o ideal é que seja assimétrica e distorcida para a direita. É evidente que é importante também ter consciência que muitas circunstâncias podem alterar esse tipo de distribuição, mudando radicalmente as conclusões. No caso, se fosse uma distribuição normal, com baixos valores de dispersão em torno da média, você poderia, com tranqulidade, marcar a data do seu funeral para daqui a oito meses.
O texto em questão foi baseado no ensaio "The median isn´t the message", elaborado por Etephen Jay Gould, em tons autobiográficos, quando, em 1982 teve o diagnóstico de um mesotelioma, um tipo raro de câncer geralmente associado com exposição a amianto. Gould, depois de pedir a melhor literatura sobre a doença em questão para o médico, dirigiu-se à biblioteca da Universidade Harvard e, ao se deparar com referências que não poderiam ser mais claras, tipo "mesothelioma is incurable, with a median mortality of only eight months after discovery", não entendeu por que o médico somente muito a contragosto lhe indicou alguns livros sobre o assunto. Ele, em vez de se aterrorizar com o que acabara de ler, teve suas esperanças renovadas. Afinal, um cientista do calibre de Sthefen Jay Gould sabia muito bem interpretar o significado de uma mediana. Ele viria a morrer em 10 de maio de 2002. Muito tempo a mais que a expectativa de vida de oitos meses, como um interprete mais apressado (e não qualificado em estatística) poderia supor. Para a felicidade de Gould, ele, de fato, estava no lado direto da curva.
Sobre estatísticas e suas interpretações, vale lembrar a referência sarcástica de Mark Twain (Samuel Langhorne, 1835-1910), quando salienta que há três espécies de mentira, cada uma pior que a anterior (há quem atribua essa assertiva a Disraeli). São elas: qualquer mentira, mentiras maldosas e estatísticas.

Gilberto Cunha.

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Brasil - Futebol no ar



O mundo gira e a bola rola. O tempo passa e passam os lances no gramado. É o futebol que invade nossas vidas sem levar cartão furado.
Não existe impedimento, apenas o sofrimento de toda nação, que torce por seus heróis lendários nestes eventos bilionários.
Lá o juiz é ladrão, rouba da seleção. Aqui o ladrão é juiz, roubando o sustento de mais um infeliz.
Pobre jogador foi agredido. Pobre cidadão foi demitido, mas neste lance ninguém prestou atenção, estavam todos vidrados na televisão. Que tremenda jogada por milhares comentada, passou por três e marcou. Que horrenda emenda apresentada, ninguém notou, foi aprovada e outro direito conquistado dançou no Senado. Outro imposto chegou. Outra mordomia se incorporou ao salário de quem lhe apresentou, de quem sordidamente a julgou.
Amontoam-se os afortunados no estádio, se amontoam os desvalidos nas favelas. Olhares na mesma direção, milhares de indivíduos cegos para sua miserável situação, o importante agora é torcer pela seleção.
Gritos ecoam de todas as direções, gol marcado, vitória da seleção. Gritos se calam, marcados em giz e sangue no chão, vítimas da opressão. Mas neste lance arbitrário não tinha árbitro para dar cartão vermelho aos culpados.
Acabou a copa, o Brasil é campeão (ou não). Mais um sonho realizado, ou talvez despedaçado. Entoem felizes todos os cidadãos suas cantigas de louvor à seleção, ou quem sabe, suas lamúrias de decepção. Enfim acordem, pois sua sina continua. Voltem e marchem a marcha dos desesperados. Voltem e votem em lobos disfarçados. Cantem em gemidos o hino dos desgraçados...


Antonio Brás Constante.

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