É preciso olhar para si
mesmo, e não julgar o próximo
Não foi a
política, foi uma palavra que me separou do grupo religioso familiar e caminha
a passos largos para me separar da humanidade inteira. Eu, que sempre defendi
os méritos das religiões, sou obrigada a reconhecer que um erro de tradução do
cristianismo condenou uma civilização inteira, talvez até a espécie humana.
Sim, o
“Não julgueis” é o verdadeiro culpado pelo estacionamento da raça humana na
trajetória infinita da evolução espiritual e da nossa espécie. Graças a isso é
que somos tão parecidos aos animais irracionais. Obviamente a culpa é dos
tradutores que fizeram algo parecido com substituir na obra de Sheakspeare o
‘ser’ pelo ‘ter’: “Ter ou não ter, eis a questão.” Obviamente teríamos
acreditado que foi assim que Hamlet falou desde a estreia, já que refletir
sobre coisas consolidadas ou incoerências é sempre visto como um ato
subversivo.
Pois com
o “não julgueis” aconteceu o caso hipotético de Hamlet, a frase nega e invalida
todo o Cristianismo. A contradição é tão óbvia que o próprio Jesus nos ensinou
a julgar: “Uma árvore boa não produz maus frutos e uma árvore má não produz
bons frutos.” E teve ainda o cuidado de nos apontar meios e referências para
julgar de forma mais justa que é colocando-nos no lugar do outro para facilitar
o entendimento das motivações e antídotos para os erros e aderir aos acertos.
A lei do
perdão, máxima do Cristianismo, fica toda revogada sem que se julgue se o ato é
ofensa, quem errou contra quem?… Sem julgar, o que há para perdoar? “Vá e não
torne a pecar’ ou ‘atire a primeira pedra quem não tiver pecado” – não negou o
pecado. “Bem aventurados os que têm sede de justiça.” Como vou ter sede de
justiça se não posso julgar o que é justo e injusto?
Toda a
reflexão e a busca do conhecimento foram condenadas quando se proibiu o
julgamento, até porque relegou à humanidade um estado de pecado eterno, pois ao
proibir algo inerente ao raciocínio como a água é indissociável da vida, forçou
a todos a negarem a prática mais cotidiana a fazê-lo às escondidas, em segredo.
A vida em
coletividade se torna impossível se abrimos mão de julgar: “Andou jogando uma
bomba em Hiroshima? Quem sou eu para julgar?” “Bateu na mulher? Quem somos nós
para julgar?” Um atraso e tanto para a evolução das leis isso de “em briga de
marido e mulher ninguém mete a colher”. Quem julgará então? Na fala do
religioso, só Deus; na prática, todo mundo; nas leis humanas julgavam os reis e
hoje julgam os tribunais.

A única
conclusão racional disso é que o erro da tradução colocou a palavra “julgar”
onde deveria constar “condenar”. Julgar demanda investigação, análise
aprofundada de provas, tomada de depoimentos, direito de defesa da vítima. É a
razão de ser da filosofia e da busca do conhecimento em todas as áreas das
ciências humanas.
Já
condenar é decretar e executar a sentença, castigar, punir. Para viver em
comunidade é notório que as sentenças e condenações serão mais justas quando
atribuídas a colegiados neutros, mas o julgamento cabe a cada um até para
termos o discernimento das condenações injustas, como o apedrejamento sustado
num exemplo claro de que a reflexão e o juízo próprio é peça integrante para
contestar as crueldades e pertinência das leis.
A questão
brotou no meu grupo de estudo religioso uns seis anos atrás, quando a proibição
de julgar (como ocorre na sociedade) era inquestionável. Encerrado o decreto
com vitória arrasadora de que julgar é um pecado, passávamos todos para a sala
do lanche onde sem nenhuma metodologia ou critério nos dedicávamos a condenar o
comportamento alheio pulando o processo do julgamento, aquele pecaminoso que
interroga, analisa, concede direito de defesa e ouve o lado da defesa e da
acusação.
De acordo
com os princípios bíblicos estava certo. Nunca ninguém disse “Não condeneis”,
estamos todos santificados. Não xeretamos a vida dos outros, não gastamos
tempo, não nos debruçamos em análises das lacunas. Apenas definimos o que é a
“opinião” de cada um e pronto. Lembro que passei a ser a chata do grupo,
insistindo na discussão de um ponto tão óbvio contra todos, sem exceção,
unanimidade absoluta. Até que, enfim, renunciei à questão.
Mas eis
que toda omissão produz efeito tal e qual toda e qualquer ação. E então a
política saiu de seu esconderijo e guetos secretos invadindo ruas e lares. Foi
quando os efeitos letais do “Não julgueis” se materializaram com seu
avassalador poder de destruição de relações, amizades, famílias e até de
nações.
Quem dera
tivéssemos aprendido antes a julgar, a nos reunirmos para analisar provas e
indícios, ouvir o lado da acusação e da defesa, esgotar a possibilidade de
buscas de elementos… O que poderia ser análise filosófica e material conjunta
com poder de nos unir, saltou essa etapa e nos dividiu.
Sem
julgamento, “Dilma vagabunda – Quadrilheiros – Corja de ladrões – Acabou com o
Brasil – Copiou de FHC – Lulinha milionário – cortou o dedo para se aposentar”
e tantos outros julgamentos realizados e consolidados sabe Deus onde ganharam
espaço no círculo religioso, no familiar, na mesa do jantar, nos almoços de
domingo. A imprensa adquiriu status de tribunal.
Nem todos
concordavam com as condenações decretadas, mas como não nos cabe julgar e analisar
elementos, ficou assim: cada um tem o direito às próprias opiniões e não se
discute, mesmo sendo dialética a base da política e sendo a política o
instrumento da implantação da justiça social.

Em sinal
de protesto contra o apedrejamento sem julgamento me afastei do grupo de debate
religioso até que aceitem guardar as pedras e revogar a lei do não julgueis.
Não vão guardar as pedras nem revogar a prática. Então não vou voltar.
Desde
criança vivo em pecado e decidi continuar assim. Sempre reparei e julguei o
efeito dos atos alheios, as posturas dos colegas e dos meus superiores no
trabalho, como cada um se vestia, falava e se comportava e o que resultava
disso nas promoções e demissões. Meti minha colher em briga de marido e mulher,
chamei polícia, entrei em briga de pivete de rua, ouvi em pesquisa dezenas de
mulheres vítimas de violência doméstica, alcoólatras, usuários de drogas,
políticos, estudei leis, métodos, fucei o mundo julgando (investigando –
analisando) pra ver o que produzia melhores e piores resultados.
Julgo
tudo o que vejo e leio, mas não atiro pedras, assumo defesa de lados. Condenar
ou executar penas não cabe a mim, como entendi no discurso de Cristo. E aí os
que não julgam estranham quando digo que não ligo pra se Cunha vai preso ou
não, só quero um novo Congresso para que o Brasil possa seguir em paz.
Eu,
pecadora convicta, escolhi a coerência ao rigor duvidoso da tradução e não
renuncio ao direito nem ao dever de julgar. Sobretudo antes de condenar
apontando quem são os bandidos e mocinhos de cada história.”
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