terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mimar seus filhos: Será um ato de amor?


Na maioria das vezes, a simples perspectiva de gerar um filho já enche os futuros pais de alegria e amor. Esses pais passam a cultivar a idéia de serem os provedores e guardiões deste pequeno ser. Para aqueles que decidem investir nesta empreitada, é difícil imaginar alguém que não pense logo em cobrir o futuro herdeiro de agrados e de mimos, tentando satisfazer todas as suas vontades. Muitas vezes trata-se do primeiro filho que foi muito esperado e desejado, ou o primeiro menino, ou a primeira menina, ou mesmo aquele filho varão vindo inesperadamente tirar a família de certo acomodamento já existente. De qualquer forma o comportamento mais comum é tentar oferecer ao pequeno tudo aquilo que estiver ao seu alcance (e algumas vezes até o que não está), para vê-lo feliz.

Toda vez que iniciamos o desenvolvimento de um novo papel social, nos remetemos a nossas memórias, aos modelos que tivemos e às nossas avaliações e julgamentos desses comportamentos e atitudes. Nosso papel de pais é naturalmente formado por esses modelos, percepções e crenças do que é certo ou errado e do que acreditamos que teria sido melhor para nós. Tentamos sempre evoluir na tentativa de superar os erros que nossos pais cometeram.

Com a necessidade de trabalhar o dia todo, os pais são obrigados a deixar seus pequenos tesouros com babás, em creches ou em escolinhas, provocando culpa - muitas vezes inconsciente -, e uma conseqüente necessidade de recompensar seus filhos.

A inexperiência em educar, natural de todo pai de primeira viagem e as inseguranças que surgem no desempenho de um papel tão novo e tão cheio de responsabilidade, são apenas mais alguns dos inúmeros fatores que interferem na forma como os pais estarão demonstrando todo esse amor a seus filhos.

Daqui podemos ter uma idéia de como o mimar surge nas famílias. Entendemos mimar os filhos como oferecer todo amor, sem medida, protegendo-os, cobrindo-os de cuidados e agrados.

O problema na verdade está no entendimento do que é amor. Amar também é frustrar é oferecer ao outro a possibilidade dele perceber que têm limites. É justamente essa noção que ajuda a desenvolver a percepção de individualidade e singularidade. Quando se descobre o que está fora de si e o que não está sob o nosso controle, nos damos conta de quem somos e, mais à frente em nosso desenvolvimento, de até aonde podemos chegar.
Desenvolvemos daí a noção de respeito.

Uma criança mimada, na verdade é alguém que se sente muito amado, tanto amado, que passa a acreditar que o outro não conta e que apenas seus desejos devem ser realizados. Torna-se egocêntrica, pois espelha o que sempre viveu em sua vida tendendo a ver a realidade por essa perspectiva.

A sensação de ser muito amado, sempre positiva no desenvolvimento humano, torna-se questionável pela própria criança, pois receber muito sem ter de retribuir nada, traz consigo a sensação de não ser real de não ser verdadeiro. Sabemos intuitivamente que nas relações reais existe sempre uma troca.

A questão central não é amar demais, mas, aprender que a frustração faz parte de nossas vidas e do amor, e serve para nos fortalecer. Se não vivenciamos a frustração, não conseguimos entender quais são nossos limites e por isso não temos a possibilidade de superá-los. Em conseqüência, também não conhecemos o limite dos outros e, portanto, temos mais dificuldade em respeitá-los.

Quem ama frustra, coloca limites e dá parâmetros.

Então, mimar os filhos pode ser um ato de amor se incluímos nesse conjunto de atitudes alguns parâmetros, como noções de individualidade, respeito a si próprio e ao outro, responsabilidade pessoal, moral, social e ética. Os parâmetros ajudam a dar sentido e realidade àqueles que cuidamos, preparando-os para viver e se relacionar.

por Sirley Bittú.

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Castelos e guerras na areia



Tenho escrito muito sobre pequenos gestos do nosso cotidiano e da possibilidade de exercitar a delicadeza e a ética que fazem parte da “guerra”, do tipo de batalha que travamos na vida contemporânea. Sim, porque isto é um treinamento que podemos optar ou não em fazer. Uma espécie de tropa de elite do dia-a-dia que invade nosso corpo, nossas vísceras, nossos impulsos e também nossa razão.

Pensando nisto, se trata de fazer uma reflexão sobre a percepção do que está a nossa volta. Ou seja, perceber o que nos é familiar, sem ser necessariamente do mesmo sangue ou aquilo que nos faz ter uma herança genética. No entanto, quando identificamos o familiar também podemos estar sensíveis ao que estranhamos, ao que não faz parte de nós. Esbarramos quase que o tempo todo neste estranho, porém não é de um sujeito que estou falando mas de situações, de vivências, de experiências que a vida vai nos recheando. Traduzindo: aquilo que fecha mais com a maneira de cada um ou que não bate com a forma que vivemos.

Nesta época de férias e veraneios pode ser interessante pensar como isto se dá. A praia é um lugar super democrático, ainda que tenha uma certa organização por tribos que se espalham conforme o que o espaço do litoral proporciona (banho, surfe, esportes, brincadeiras na areia, área para banho de sol) e também não podemos negar que há uma certa distribuição diferenciada, que o poder aquisitivo ocasiona, nas areias das classes sociais.

De qualquer maneira quando passamos uma parte do dia na beira da praia acabamos percebendo quem são os vizinhos que nos cercam com seus apetrechos de todas as ordens. Durante o tempo que se passa na beira do mar vai se tornando familiar a maneira que a criança brinca, que os adultos se comportam. Com relação a alguns faríamos igual, semelhante ou muito diferente. Tem aqueles que entram no mar e os que não entram. Aqueles que permanecem lendo quase o tempo inteiro e os que nem pensam em combinar praia com leitura. Tem os que conversam o todo tempo, que dormem, que comem de tudo, que bebem, quem compra de tudo, (pois há quem vende de tudo), quem fuma, quem joga, quem caminha, corre, quem joga lixo no chão, quem junta o lixo do chão e quem fica observando tudo isto que às vezes se transforma numa muvuca enorme e outras vezes parece compor uma ordem perfeita.

Neste leque de situações se pode perceber quando os embates se dão. Como, por exemplo, um menininho que chora muito porque quer só pra ele o brinquedo do seu vizinho de guarda-sol. Nesta hora, podemos perceber como os pais são convocados a agir com a criança numa viagem pela passagem do mundo infantil ao adulto e vice-versa. Ou seja, como as crianças se comportam em relação aos pais e como os adultos agem e se defrontam com os filhos, seus e dos outros. Como ocorre aí a relação dos adultos, seja entre um casal, seja no que se refere aos vizinhos na areia. Às vezes ocorre um exercício da ética, de educação e outras vezes o que se vê é um descaso com as outras pessoas, com o lugar e com a situação.
Mas há também as sintonias de uma amizade que se constrói junto com os castelinhos de areia que se erguem e que são como ondas do mar que se prolongam pela praia num desencadeamento da vida de maneira tão natural e espontânea. Achamos sempre neste caleidoscópio coisas que podem nos ser muito familiares e outras muito estranhas. De dentro desta observação, podemos refletir sobre a nossa postura ou nossa atuação.

por Patrícia Spindler.

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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os Nossos Diamantes Sociais



O diamante é, sem dúvida alguma, uma das mais cobiçadas pedras preciosas do planeta azul. Quanto vale uma jazida de diamantes desconhecida? Nada, absolutamente nada. Mas existe uma “mina de diamantes e de outras pedras preciosas”, em nossa sociedade, que é minimamente reconhecida, valorizada e respeitada.

Estamos nos referimos à imensa legião de pessoas aposentadas, cuja trajetória se confunde com a história do nosso desenvolvimento social, econômico, político e cultural. Essas criaturas dedicaram os melhores anos de suas vidas às empresas em que trabalharam, deixando-nos exemplares lições de profissionalismo e lealdade.

São milhões de pessoas de todas as profissões e religiões, etnias e ideologias, nacionalidades diferentes e tradições surpreendentes. Se a jazida de diamantes é uma reserva mineral com valor econômico previsível, a massa de trabalhadores é um tesouro social com valores subjacentes incalculáveis.

Este é o nosso novo projeto, que já deu os seus primeiros passos, com a indicação de convidados para integrarem a primeira equipe, que irá elaborar as “regras do jogo” e o calendário de atividades.

O perfil ideal é que sejam pessoas aposentadas sem atividades remuneradas, desvinculadas de partidos políticos e de interesses empresariais. Estes requisitos darão a indispensável liberdade para que o grupo sugira idéias que beneficiem a coletividade, independentemente de serem, ou não, prioridades da política ou da economia.

Os projetos, desenvolvidos através do MASP – Metodologia de Análise e Solução de Problemas - poderão ter como foco a cidadania, meio ambiente, saúde, educação, cultura, ou outro tema, desde que o objetivo seja a melhoria da qualidade de vida.

Esta nossa iniciativa irá revelar, reconhecer e valorizar pessoas excepcionais que, apesar da capacitação técnica, conduta ética e competências ecléticas, passaram a vida toda no anonimato.

Encerramos com o pensamento do célebre líder pacifista hindu, Mahatma Gandhi (1889-1948): “a verdade pode ser dura como o diamante ou suave como a flor do pessegueiro”.

Por Faustino Vicente.

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domingo, 2 de janeiro de 2011

O sonho da fraternidade universal



É com muita frequência que abordamos o tema da necessidade de interiorização como metodologia para o autoconhecimento. Como o foco é a própria pessoa, uma leitura descomprometida pode parecer que se faz uma apologia ao egoísmo. Pelo contrário, o que reafirmamos é que o homem que consegue sucesso nesse mergulho na própria natureza e existência interna, que consegue a chave para abrir os portais que o levarão de volta ao seu âmago, encontra a fonte única de todos os seres. É quando então emerge a Unidade como verdade eterna. Ligados ao verdadeiro espírito da fraternidade universal estamos aptos a buscarmos um mundo melhor, a trabalhar por ele, conscientes de que somos todos irmãos.
A visão egoísta percorre outros caminhos e o ser humano se sente solitário, isolado, porque é incapaz de captar as realidades alternativas, fecha-se em seu casulo, encontra nomes para justificar sua omissão – cautela, cuidado, descrição, prudência – para ocultar a limitação da sua percepção e outros sentimentos como rejeição, medo, culpa. Geralmente estes sentimentos são alimentados pela dificuldade individual de interiorização e se o homem não os identifica, também não pode combatê-los e superá-los, transmutá-los. Tanto o medo da partilha quanto a arrogância de se sentir superior gera a solidão, expressa na incapacidade de criar e direcionar as experiências de forma a superar as diversidades absorvidas pela nossa percepção.

O universo é dual em sua natureza. O ideal de harmonia implica em unificar o poder dualista, gerar equilíbrio, colocar-se entre as colunas. Ser fraterno significa não estar isolado, mas unidos por um princípio gerador de uma força conjunta, capaz de promover uma construção dentro dos arquétipos pessoais. À medida que nos conscientizamos dessa ligação universal, o sentido de solidão se expande até ser substituído pela comunhão com a luz. São etapas difíceis e muitos de nós poderemos ficar atados aos nossos fantasmas e fantasias, perdemos o foco e nos distraímos buscando justificativas em vidas passadas, ou paralelas, para explicar a nossa incapacidade de convivência. Neste aspecto, atingimos sempre e mais, os que nos são mais próximos. Embora seja normal este processo de amadurecimento espiritual o ponto central deve sempre ser a evolução da consciência.

Não existem regras para buscar a si mesmo, mas existem métodos que se mostram eficazes se praticados com disciplina e desejo sincero de autoconhecimento. Uma das formas de superar as dificuldades do caminho da luz é procurar reservar um momento de meditação para criar uma atmosfera harmônica que ajude a delinear uma trajetória moral e consciente de como buscar essa comunhão universal, sem nos perder nos atalhos. Aqui sim, a experiência é individual. Temos necessidade de experiência própria, as percepções são diferentes de pessoa para pessoa e neste aspecto não existem iguais no Universo. Somente depois que ultrapassarmos esta etapa, quando não precisamos impor a nossa verdade sobre a verdade do outro, é que temos contato com a nossa fraternidade. As diferenças são conceituais e deixadas no mundo das aparências. Assim, centralizados na Luz, todos fazemos parte de uma consciência maior e só queremos amor e paz para todos.

Os resultados, a compreensão que extraímos das nossas meditações, deverão se basear em princípios profundos, mas também no senso prático, não apenas uma mera adição à confusa massa de teorias e especulação no mundo da ciência, mas sim por causa de suas implicações reais sobre os interesses da humanidade.

De nada adiantarão nossas percepções se elas não dirigirem as nossas ações para o bem comum. Pouco resolverá incorporarmos ao nosso vocabulário palavras como essência, essencial, substancial, sem conhecermos o misterioso morador das profundezas do nosso ser. Ao longo do nosso desenvolvimento observamos que a fraternidade universal, mesmo sendo uma matéria de difícil compreensão, é de transcendental importância para a solução dos grandes problemas da humanidade. É dela que depende o surgimento de instituições sócio-políticas justas e sadias, que possam harmonizar a humanidade e aliviar os seus sofrimentos. Pode até ser um sonho, mas é um sonho de nobreza.

Por Kleber Adorno.

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Recriar a si próprio



A vida é múltipla o suficiente para nos apresentar situações que vão desde aquelas que são simples de imaginar até as inimagináveis. Ela é um conjunto de circunstâncias que vão das mais previsíveis às totalmente inesperadas. Nesta trajetória, que é única para cada um, as pessoas vão se modificando e suas vidas vão se alterando.
Estas transformações acontecem por diferentes fatores. As etapas que cada sujeito passa na sua existência, como a infância, a adolescência, a fase adulta e a velhice, são passos inevitáveis e que oportunizam mudanças muito baseadas em nossas alterações biológicas. Nosso corpo vai mudando e nossa percepção em relação a ele também. A leitura do mundo ao nosso redor, nossas ideias e comportamentos vão variando. Nossa subjetividade é algo que se compõe a cada nova experiência e a vida se traduz em uma eterna fita de Moebius que se enlaça tal como o símbolo do infinito sem deixar claro algumas vezes o que vem de dentro e o que vem de fora. Construímos o que está ao nosso redor que, por sua vez, também nos constrói.
Passamos, via de regra, por estas etapas que se apresentam para todos nós de forma mais ou menos semelhante. Porém, de um jeito menos (crono)lógico, cada um absorve de modo singular e inusitado as mudanças que a vida oferece. Neste sentido, não é possível evitar a necessidade de recriar a si próprio no decorrer do caminho. Em algumas ocasiões, as pessoas evitam se deparar com estas situações deixando atingir uma urgência tamanha que gera uma grande crise. Como se estivesse acontecendo um abalo sísmico, um terremoto que não se sabe se vem de dentro ou de fora. Ainda assim muitas pessoas resistem e não se permitem mudar suas forma de sentir, ver e lidar consigo e com o que está ao redor.
"Mas porque não nos reiventar?", canta Adriana Calcanhoto em uma bela música nos auxiliando a pensar que "não há lugar pra lamurias, essas não caem bem, não há lugar pra calunias, mas porque não nos reiventar?" ao invés de ficar rígido, fixo, como uma árvore plantada no solo que só sairá dali quando for derrubada e morta.
Se recriar pode dar bastante trabalho, exige coragem e disposição. É fazer constantemente uma escultura de si próprio. Um trabalho artesanal que nunca acaba, que nunca fica totalmente pronto. Para que possamos ser senhores de nós mesmos é preciso gostar da modelagem que vamos aprendendo a fazer aceitando as modificações durante o seu feitio. Afinal, é preciso assumir esta tarefa que cada um faz por si. E não há como delegar.

por Patrícia Spindler.

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O que faltou em 2010



O país que sonha com a riqueza do pré-sal ainda tem muito trabalho a fazer para reduzir a níveis aceitáveis os problemas sociais crônicos que permearam o noticiário todos os dias do ano.
A eleição de Dilma Rousseff, o resgate dos mineiros no Chile, a retomada dos morros cariocas, a dita nova explosão industrial brasileira e tantos outros fatos marcantes do ano que terminou - pesquisados criteriosamente pela equipe de repórteres e editores do Cruzeiro do Sul e reunidos - comportam muitas leituras e, assim como tudo o que é história, passam a constituir desde logo, para quem se proponha a estudá-los, uma fonte de reflexões e aprendizado.
Para o Brasil, particularmente, o conjunto de fatos e ações a partir dos quais se construiu a percepção jornalística e histórica de 2010 se apresenta rico em significados, muitos deles positivos. O país caminhou para se tornar uma potência mundial nos planos econômico e político, mercê de uma feliz conjunção de políticas públicas bem direcionadas e circunstâncias mundiais favoráveis. E o fez na condição de democracia estável e ativa, o que não é pouco para um país que, há poucas décadas, percorria o labirinto da crise econômica e do Estado de exceção.

No entanto, o país que sonha com a riqueza do pré-sal ainda tem muito trabalho a fazer para reduzir a níveis aceitáveis os problemas sociais crônicos que permearam o noticiário todos os dias do ano, fazendo de 2010 um território ocupado pela violência, pela negação de direitos básicos, por desastres evitáveis, pelo avanço das drogas pesadas como o crack.

As grandes conquistas serão sempre ofuscadas enquanto persistam problemas estruturais na saúde, na habitação, no transporte, enquanto faltem creches e sobrem bocas de tráfico na periferia.

A festa brasileira não será completa, principalmente, enquanto o Brasil não priorizar a educação em seu sentido mais profundo, como ferramenta transformadora da própria sociedade e a única capaz de interferir qualitativamente em todos os processos, nas muitas dimensões -familiar, social, política - da vida social. A falta de instrução (não confundir com escolaridade) está presente, como fator ativo, em praticamente todos os grandes problemas brasileiros, a começar pela baixa qualidade da atividade política, derivada de escolhas erradas de eleitores iludidos e desinformados.

Por sinal, a educação, nesse sentido amplo - assim como sua ausência, que não deixa de ser uma ênfase à sua importância -, é uma determinante em todos os fatos marcantes do ano que termina. O conhecimento científico que permitiu aos mineiros escapar a uma morte terrível no fundo da terra é uma expressão viva do mesmo desenvolvimento intelectual que alavancou o crescimento de algumas cidades no campo automotivo e proporcionou, ao governo Lula, as soluções políticas e econômicas responsáveis (em parte, ao menos) pela vitória de Dilma.

Se o Brasil ruma para ser uma potência econômica, é imprescindível que escolha desde logo que tipo de potência deseja ser. Há potências mundiais em que a população, embora materialmente abastada, vive uma inacreditável miséria intelectual, incapaz de encontrar prazer em coisas sutis, de fruir a beleza da criação artística, de aproveitar os espaços públicos para atividades saudáveis - incapaz até mesmo de cuidar do próprio corpo, já que não sabe sequer se alimentar corretamente, bebe em excesso e se entope de drogas e remédios.

Soma-se a isso que boas fases econômicas vêm e vão. A economia global é, hoje, um grande castelo de cartas, em que todos são afetados e muitos acabam caindo, pelo simples fato de que um país do outro lado do mundo entrou em dificuldades. Um país sem uma educação digna do nome dependerá eternamente das conjunturas interna e externa, dos recursos naturais e de fatores múltiplos - muitos deles inteiramente imprevisíveis - para ser o que sonha ser. Com educação, é o povo a grande riqueza. Uma riqueza inesgotável, que pode trazer muitos anos bons.


Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul.

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sábado, 1 de janeiro de 2011

SEPARAÇÂO SEM TRAUMAS

Encarar brigas dos pais é uma das tarefas mais difíceis dos filhos. E quando elas são apenas o início do processo que termina na separação, as crianças costumam ficar divididas. Mas é assunto para os pais fazer com que os filhos vivam a situação da melhor maneira possível.

De acordo com a psiquiatra Gabriela Valério, “o divórcio é o maior rompimento no processo do ciclo de vida familiar. E, atualmente, é uma constante social. Afeta os membros da família em todos os níveis geracionais, provocando uma crise para a família como um todo. Pesquisas indicam que o sistema familiar requer de um a três anos para lidar com a divisão, restabilização e continuar seu processo de desenvolvimento normal”, destaca a médica.

Todos sofrem numa separação, mas os filhos sempre são os mais afetados. “Dentre todos que podem ser afetados pelo divórcio de um casal, estão os filhos como os mais propensos. As repostas emocionais dos filhos podem variar de acordo com a fase do desenvolvimento e com a estrutura psicológica que apresentam”, explica Gabriela.

A maioria das separações acontece, no entanto, quando os filhos são pequenos e tem dificuldade de entender como os pais não querem ficar juntos. “Segundo pesquisas, a família corre maior risco de divórcio durante a fase em que os filhos são pequenos. Nessa fase, o casal precisa fazer a transição de redefinir o seu relacionamento, de assumir o papel de cuidador e de realinhar-se com a família, amigos e comunidade. E, nesse estágio de desenvolvimento, os filhos são muito afetados. No divórcio com os filhos em idade pré-escolar, eles podem regredir de estágio de desenvolvimento de várias maneiras, como: ansiedade de separação, dificuldades no sono, molhar a cama, apego excessivo, medo de qualquer saída. Essas manifestações da criança em reação ao divórcio e a resposta dos pais podem interferir com o desenvolvimento da identidade sexual”, alerta a psiquiatra.

Mas não é só nessa fase que as consquências aparecem. “No divórcio com os filhos na idade da escola elementar, onde as crianças estão entre seis a oito anos, elas passam por dificuldades maiores do que qualquer outra etapa, afinal as crianças são suficientemente crescidas para perceberem o que está acontecendo, mas ainda não têm a capacidade adequada para lidar com o rompimento. Elas podem desenvolver problemas escolares, como o mau desempenho, comportamento problemático com os amigos ou autoridades e sintomas físicos”, avalia a médica.

Adolescência

Raiva pode ser uma das reações dos filhos quando a separação dos pais acontecem na fase em que estão na adolescência. “No divórcio com os filhos adolescentes, em virtude da natureza instável dessa idade, as reações podem ser de raiva e desejo de um lar estável. Os adolescentes podem seguir dois caminhos: para aqueles que estavam tendo dificuldades, o divórcio cria uma carga adicional, aumentando o risco de problemas emocionais; para outros, a mudança na participação da vida familiar pode ser uma experiência amadurecedora. Os filhos, nessa idade, podem envolver-se em comportamentos autodestrutivos, como: matar aula, fracassos na escola, abuso de substâncias, dentre outros. Mas, lidar com o adolescente é difícil mesmo quando o casamento é intacto”, ressalta Gabriela.

Clareza

O melhor de tudo, em qualquer fase da vida dos filhos, é tratar do tema com eles e de forma esclarecedora, sem que se sintam culpados pelo fracasso do casamento dos pais. “Tratar o assunto com clareza e verdade, numa linguagem que seja compreensível, pode ser uma das melhores ferramentas disponíveis aos pais para lidar com o assunto”, ensina a psiquiatra.

Por Gabriela Valério.

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Sinceridade, magoas e mentiras...



Todas as palavras do dicionário, por melhor que ele seja, sempre levam uma carga subjetiva quando as usamos. Conheci e conheço muitas pessoas que se dizem sinceras, e elas realmente o são, de acordo com a sua subjetividade.
Tem algumas que cospem suas verdades, ou suas convicções do que seja a verdade, e por isso falam que são sinceras. Outras têm a capacidade de ver as coisas somente de seu ponto de vista, esquecendo que há um interlocutor, que também possui seu lado da história.
Sinceridade! Quantas mágoas foram feitas em teu nome!
Na adolescência eu tive um amigo que acreditava ser a sinceridade em pessoa. Como magoava! Ele falava qualquer coisa que vinha à sua mente, e honestamente acreditava que isso era ser sincero. Não media as conseqüências do que dizia, não tinha nenhuma filtragem prévia entre o cérebro e a boca. Não entendia porque as pessoas ficavam magoadas com ele. Ele era tão sincero!
A responsabilidade sempre é daquele que dá a mensagem. As mesmas palavras mudam de significado dependendo da entonação, o momento ou as circunstâncias nas que são proferidas. Também devemos pensar na situação daquele que está recebendo nosso discurso.
As mágoas são outro problema. Muitas vezes nossa mera presença magoa as pessoas, porque elas estão mal consigo mesmas, não tivemos nenhuma responsabilidade, mas nos é atribuída. Outras magoamos sem querer, porque não tivemos a sensibilidade de perceber o estado de ânimo de nosso ouvinte, só pensamos na nossa necessidade de botar para fora o que nos estava incomodando.
E as mentiras? A maioria das vezes ouvimos dos outros aquilo que queremos ouvir, não aquilo que foi realmente dito, então nos ofendemos e dizemos ao mundo que fulano nos ofendeu. Verdade? Não. Mas para a gente passa a ser uma verdade, e para o outro uma mentira. Quem é o mentiroso? Quem fala a verdade?
Sinceridade, mágoas ou mentiras? Como saber?
Única solução: sempre tentar ver o lado bom das coisas, porque se olhamos sempre o negativo nunca encontraremos sinceridade, sempre ouviremos mentiras e viveremos magoados.
E você meu caro amigo é sincero, mentiroso ou magoado?


Ricardo Irigoyen. ( tatirigoyen@yahoo.com.br )

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DESEJO MEUS DESEJOS ...



Tenho pensado em meus desejos para um novo ano. Queria algo novo, original. É preciso desejar ter desejos. E mais, que nossos desejos e escolhas realmente sejam nossos, algo difícil num mundo globalizado.

Quero uma paz diferente, irrestrita, incondicional, isenta de negociatas e chantagens. Minha paz tem uma alvura além das pombas pintadas de aurora. A paz dos recém-nascidos me serve, por exemplo. A paz do orvalho, também aceito. Quem sabe a paz dos presépios e das pétalas.

Não me interessa a paz da ONU, ou a acordada entre árabes e judeus. Definitivamente, não me serve a paz sustentada pelo medo.
Quanto ao amor, quero-o singelo. Nada do amor das novelas ou o desesperado dos filmes. Que continue o amor despojado da mulher amada, seu café batido quando acordo, seu olhar cuidadoso para a combinação das meias, sua ternura e silêncio quando estou preocupado, sua respeitosa distância quando me calo. Desejo prosseguir sorvendo seu amor/confiança, e seu amor/paciência. Desejo um ano inteiro do amor feito na cama e nas ruas. Importantíssimo é o amor administrado na economia dos desejos, quando o orçamento não alcança os sonhos nascidos.

Se eu desejar alegria, nunca, jamais será a dos bêbados. Será a da corruíra fazendo seu ninho no limiar da primavera. É alegria de coisas pequenas, a pena para o ninho, por exemplo. Não há ninho que mereça esse nome se não tiver uma pena. Ajeitar penas no ninho é um modo lírico de sublimá-las.

Se eu desejar a alegria, não será a dos bobos da corte, a dos programas de humor, nem a do ridículo dos outros. A alegria que desejo não é a da gargalhada, mas a do sorriso; não é a da festa, mas a da ceia. Minha alegria é a do ancião, alegria destelhada. Nada pode ser perdido quando os bens acumulados estão aonde a chuva não chega. Deixo a chuva cair sem medo sobre a minha alegria.

E a felicidade? Difícil descrevê-la quando o paradigma é o exposto nos intervalos de programas de TV. Todo mundo abarrotado de coisas sempre inventadas novas e diferentes. Um automóvel com um design futurista, um celular com função inédita, um móvel alienígena, uma roupa com tecido mais suave. Minha felicidade tem a ver com a das mães que reencontram um filho há anos roubado, com a do filho beijando a mãe desconhecida, com a dos parentes recebendo na varanda um familiar seqüestrado, com a de alguém vivo depois de um acidente, como a de quem desperta de um longo coma. Essa felicidade pode ser fabricada e está acessível a todos.

Tenho muitos outros desejos próprios, imensos demais para o papel. Prefiro poupar árvores. Aliás, pensando em árvores, desejo uma natureza cuidada com o zelo dos amantes.
Por fim, desejo não perder a esperança, apesar de andar sempre distraído.

Cada um com seu desejo novo desejemos juntos. Quem sabe, desta vez, os desejos se tornem realidade.


Por Pablo Moreno.

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