sábado, 2 de fevereiro de 2013

Será que caso ou compro uma bicicleta?


Casar pode ser o sonho de muita gente. Entrar no altar de mãos dadas com o teu pai, ver o amor da tua vida ali, parado um pouco mais à frente, te esperando para te receber até o final da vida. Mas, para! Isso é o que acontece em filmes, essa é apenas a parte boa e bonita do casamento. Casamento tem brigas, tem barraco, tem ciúmes, tem gastos, tem desgaste emocional, tem uma porção de coisas.

E a bicicleta? A bicicleta é ela e pronto. Ela não te cobra se tu chegares tarde em casa. Não vai te fazer cara feia se tu fores a um churrasco na casa dos teus amigos. Nem irá te mandar mensagem dizendo: "E aí?". Claro que não! A bicicleta é simples, meiga e uma das tuas melhores amigas. Tu sobes, abre as pernas e sai por aí...

Ela tem a capacidade de te proporcionar a sensação de liberdade mais gostosa do mundo. A brisa acariciando teus cabelos, a confusão do trânsito te dá a mais infinita leveza, independência, felicidade...

Mas, vem cá?! Quem vai passar o domingo contigo quando estiveres com frio e cansado? Quem vai te fazer companhia em uma quarta-feira de feriado? Quem irá cobrar tua presença quando deres saudades? Quem vai te mandar aquela mensagem de boa noite só no objetivo de dizer: "Tu és a última pessoa que penso antes de dormir"? Com quem irás construir uma história?

Ter uma bicicleta é ótimo, mas eu sugiro-lhes terem os dois. E vocês podem! O dia que o casamento estiver tenso, pesado, pega tua companheira e vai por aí refrescar tua mente. Desgasta os pneus da bike e não o teu relacionamento. Trai apenas o caminho que tu fazias antes. Mude a rota. Grite de raiva e chute o quadro da companheira de duas rodas quando ela inventar de deixar a correia escapar. Explode. Grita. Xinga. Ama e odeia a tua magrela. Deixa-a em um canto, esquece por um tempo, pega de novo. Porque bicicleta dá, dá e pode.

Agora casamento na primeira esquecida, um dos "pneus" já vai começar a esvaziar. No segundo grito, já esvazia o da frente. Na terceira esquecida, na quarta briga, na quinta confusão, já irá furar o pneu da frente e o de trás. Aí meu amigo, não adianta tapar o furo com pistache. Cuida bem do que é teu, cuida e te dedica no afeto de quem está ao teu lado. E a minha magrela? Perguntariam os indignados.

Ah, ela vai estar sempre ali no cantinho da garagem, esperando por mais e uma velha/nova aventura. Então, casa! Casa e compra uma bicicleta...


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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Para ler antes de assistir ao filme Lincoln


O filme Lincoln, de Steve Spilberg, está credenciado para se tornar no grande premiado na festa da entrega do Oscar em 24 de fevereiro próximo. A película narra os últimos dias de vida do mais icônico e reverenciado dos presidentes americanos, destacando seu papel a favor da abolição da escravatura – tema muito atual, sobretudo na era Obama.

Pois a questão da escravidão nos EUA no século 19 e o Brasil têm muita coisa em comum. Em 1850 o Brasil tomou várias medidas que tentavam mudar a fisionomia do país, encaminhando-o para o que então se considerava modernidade. Extinguiu-se o tráfico de escravos pela lei Eusébio de Queiróz, promulgou-se a Lei de Terras (que evitava o acesso à propriedade da terra por parte de futuros imigrantes), centralizou-se a Guarda Nacional e foi aprovado o primeiro Código Comercial que, entre outros pontos, definiu os tipos de companhias que poderiam ser organizadas no país e regulou suas operações.

 No plano político, liberais e conservadores chegaram provisoriamente a um acordo nacional, expresso, sobretudo, no Ministério da Conciliação.
Esboçava-se assim, nas áreas mais dinâmicas do país, mudanças no sentido de uma modernização capitalista; ou seja, nasciam as primeiras tentativas para se criar um mercado de trabalho, da terra e dos recursos disponíveis. Enquanto isso, nos Estados Unidos – e aí vamos para o filme – em meio a uma custosa, em vidas e
dinheiro, Guerra Civil, em que a União estava desesperada por fundos a fim de sufocar a rebelião dos estados confederados, o presidente A. Lincoln, pedia ao Congresso a liberação de US$600 mil para outro fim que não o conflito.

 “Os congressistas precisam liberar o dinheiro necessário para a deportação de pessoas negras livres para qualquer lugar fora dos Estados Unidos”, afirmou Lincoln em seu discurso anual. Pouca gente sabe, mas o presidente Lincoln procurava desesperadamente por um país que pudesse receber os negros a serem libertados nos EUA.

 Como muitos políticos da época, ele tinha dúvidas sobre a assimilação de ex escravos na sociedade dos brancos americanos. Em editorial, em agosto de 1862, o The New York Times, afirmava: “o plano oficialmente proposto pelo presidente Lincoln e sancionado pelo Congresso, para dar inicio à tarefa de colonizar fora dos EUA os negros libertos ou em via de serem libertados no decorrer da guerra, está em vias de se concretizar.

Eles serão transportados à custa do governo e mantidos durante a primeira estação à custa do Estado e para tal uma verba foi aprovada pelo Congresso”. Foi com esse espírito que Lincoln nomeou como representante extraordinário e ministro plenipotenciário dos Estados Unidos James Webb, um antiabolicionista que via a libertação dos escravos como potencialmente mais perigosa do que a escravidão em si. Webb, como embaixador americano na corte brasileira, não perdeu tempo. Ao ministro marquês de Abranches apresentou três propostas, cujo fim era transvasar para o vale do Amazonas os negros que se libertassem nos EUA. O projeto previa trazer até um milhão de ex escravos para assentá-los na Amazônia, em terras doadas pelo Brasil.

O plano era mirabolante, até mesmo inacreditável, mas teve a chancela do secretário de estado americano William Seward e de Lincoln. Sérgio Buarque de Holanda foi o primeiro a chamar a atenção para essa história exótica, no prefácio que escreveu para o livro A Amazônia Para os Negros Americanos, de Nicia Vilela em 1968. Mais recentemente, a historiadora Maria Clara Sales Carneiro, da USP, na sua dissertação Fronteiras Negras do Sul, resgatou detalhes do plano em documentos que encontrou na biblioteca da Universidade de Yale, nos EUA.
O principal argumento apresentado por Webb em seu projeto baseava-se no suposto “estado crônico da falta de mão-de-obra no Brasil, em especial nas províncias do Norte. O rápido aumento do valor do negro no Rio de Janeiro e o avanço do
café, somado ao decréscimo da população escrava, ao contrário da nossa, e que é de um tipo africano bastante inferior aos trazidos ao Brasil, está rapidamente despovoando as províncias do norte do Império”.

A base seria a concessão ao governo brasileiro do direito de exclusividade de trazer para o Brasil colonos, africanos ou afrodescendentes, emancipados ou em via de o ser. O nome da proposta indica o sentido real: concessão ao general James Webb, que teria esse privilégio mantido por 20 anos. “As pessoas a serem introduzidas pelo concessionário e seus associados serão chamadas de “aprendizes”: seu trabalho por um período de cinco anos e um mês do dia do seu desembarque no Brasil será propriedade do concessionário”, afirmava o contrato de concessão. Vamos conferir se o filme faz alguma menção ao tema.


Esse conhece, então vamos conferir....

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Repetições do velho Brasil

Renan Calheiros é alvo de denúncia enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela Procuradoria Geral da República e pode assumir como presidente do Senado Federal na sexta-feira
Será uma vergonha para o Brasil se, na sexta-feira, o Senado Federal escolher como seu novo presidente Renan Calheiros (PMDB), considerado favorito na disputa. Vamos relembrar. O candidato declarado é alvo de denúncia enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela Procuradoria Geral da República. Denúncia esta, na avaliação do titular do órgão, Roberto Gurgel, "extremamente consistente". O caso refere-se ao período em que o senador foi acusado de não conseguir comprovar a origem de sua renda. Calheiros apresentou notas de vendas de bois para justificar sua situação financeira no pagamento de pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha. A situação envolve ainda o pagamento de despesas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior.
O episódio remete a 2007 e levou Renan Calheiros a renunciar à presidência do Senado para evitar a cassação. E seis anos depois, o homem que abriu mão do posto para não perder tudo, retornou e tenta voltar ao mesmo posto pelo voto dos colegas.
O novo presidente do Senado Federal será eleito nesta sexta-feira. O eleito precisará obter a maioria dos votos - a votação será secreta - durante reunião preparatória às 10h, quando deverão estar presentes pelo menos 41 senadores, a maioria da Casa. O processo ocorrerá em turno único e a possibilidade de um novo pleito só existe no caso de empate entre dois ou mais candidatos.
Mesmo com toda essa situação incômoda, de voltar a enfrentar denúncias e investigação, o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), declarou no começo da semana que o envio da denúncia ao STF não constrange o partido. Deveria. Assim como deveria se constranger também pelas acusações feitas ao deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O principal candidato a líder da bancada do PMDB na Câmara pode ter usado documentos falsos para se livrar de um processo no Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Rio de Janeiro. Essa votação ocorre no domingo e o deputado é o favorito para comandar a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, decisiva nas votações a favor do governo. A falsificação de assinaturas de documentos anexadas por ele ao processo que responde foi atestada por laudo do Instituto de Criminalística.
O Brasil tem o costume de surpreender o Brasil. Quando bons exemplos surgem, velhos problemas são resgatados, exemplos de um país que tem enorme dificuldade para se livrar da má política e de todas as suas engrenagens de bastidores. O velho Brasil que, na sexta, poderá alçar Renan Calheiros à presidência do Senado, um cargo que também pode presenteá-lo, temporariamente, com o posto de presidente do país.
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Saudade, o mais brasileiro dos sentimentos

No dia 30 de janeiro celebra-se o Dia da Saudade, sentimento que serve para mostrar que estamos vivos e que tudo que vivemos foi válido
“Saudade amor, que saudade
Que me vira pelo avesso, e revira meu avesso
Puseram uma faca no meu peito
Mas quem disse que eu te esqueço
Mas quem disse que eu mereço.” Dona Ivone Lara, sambista.

Saudade, do latim solitate, que na tradução literal significa solidão, existe apenas em uma única língua, a portuguesa. No entanto, a saudade significa mais do que solidão. Saudade é a falta de algo ou alguém, é a nostalgia do passado. Ou, como está definida no dicionário, saudade é a lembrança melancólica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas.

No dia 30 de janeiro no Brasil é comemorado o Dia da Saudade. Essa expressão tão brasileira está presente na vida de todas as pessoas, de alguma forma. Mas falaremos da saudade de quem está longe das terras brasileiras, como a estudante do curso de teatro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Monique Carvalho, de 22 anos, intercambista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em Coimbra, Portugal, há cinco meses.

Longe de casa
Monique, como a maioria dos brasileiros que estão longe de suas casas, relata sobre o sentimento ao estar longe de sua terra. “Sinto falta de tanta coisa, mas principalmente a saudade dos amigos e da família. Sinto falta da rotina que eu tinha aí, onde eu fazia tudo que eu mais gostava de fazer, pois aqui, querendo ou não, é diferente. Sinto saudade do feijão e dos peixes que minha mãe fazia. Sinto vontade de comer açaí com paçoca, que não tem aqui. Sinto falta das festas brasileiras, com músicas brasileiras.”

E para driblar a saudade de casa, Monique acrescenta: “primeiramente, eu evito ficar sozinha e os amigos me ajudam muito nisso. Tenho tentado fazer muitas coisas ao mesmo tempo, pois tento deixar minha mente ocupada, para que o assunto não me venha à cabeça, pois quando vem... vem! Muitas vezes é na hora de dormir que os pensamentos têm liberdade, que geralmente o Brasil me vem à mente”. O jeito é aceitar que a saudade existe e quando ela vem, ou curtimos a nostalgia, ou tentamos achar um jeito de nos esconder dela por alguns instantes.

A companheira
Na música, a saudade é um belo instrumento para compositores, não faz mal algum, e eles esbanjam melodias onde a protagonista é a nossa “companheira” saudade. Mestres como Vinicius de Moraes e Tom Jobim compuseram um hino à lembrança em Chega de saudade, onde cantam: “Chega de saudade/A realidade é que sem ela não há paz/Não há beleza/É só tristeza e melancolia/Que não sai de mim, não sai de mim, não sai”.

Para quem está fora do país, longe da família e dos amigos, a certeza de que a saudade tem data para acabar é algo que ajuda muito as pessoas a aguentar esse sentimento tão belo e ao mesmo tempo dolorido, que nos mostra através da famosa “sensação de vazio no peito” o que realmente importa e o que mais nos faz falta no cotidiano. “A perspectiva da volta ajuda bastante, só de saber que vamos ver a família e os amigos em breve, a saudade já diminui e nos acostumamos com ela”, desabafa Lucas Galho, de 25 anos, colega de Monique.

A saudade está aí para quem tem sentimentos. Mesmo que seja a pessoa mais racional do mundo, ela também sente ou já sentiu saudades. É um sentimento que não livra ninguém. Simplesmente acontece. Ela serve, na maioria das vezes, para mostrar que estamos vivos e que tudo que vivemos foi válido. Como diz o escritor espanhol Carlos Ruiz Záfon, “só existimos enquanto alguém nos recorda”.
Por: Mayara Fernandes.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os que devem morrer

A ciência prolonga a vida dos homens; a economia liberal recomenda que morram a tempo de salvar os orçamentos.

 O Ministro das Finanças do Japão, Taso Aro, deu um conselho aos idosos: tratem logo de morrer, a fim de resolver o problema da previdência social. Este é um dos paradoxos da vida moderna.

Estamos vivendo mais, e, é claro, com menos saúde nos anos finais da existência. Mas, nem por isso, temos que ser levados à morte. Para resolver esse e outros desajustes da vida moderna, teríamos que partir para outra forma de sociedade, e substituir a razão do “êxito” e da riqueza pela ética da solidariedade.

Ocorre, que nem era necessário que esse senhor Taso Aro – que, em outra ocasião, ofereceu o Japão como território seguro para os judeus ricos do mundo inteiro – expusesse essa apologia da morte.

A civilização de nosso tempo, baseada no egoísmo, com a economia servidora dos lucros e dos ricos, e, sobretudo, dos banqueiros, é, em si mesma, suicida. É claro que, ao convidar os velhos japoneses a que morram, Aro não se refere aos milionários e multimilionários de seu país.

 Esses dispensam, no dispendioso custeio de sua longevidade, os recursos da Previdência Social e dos serviços oficiais de saúde de seu país. Todos eles têm a sua velhice assegurada pelos infindáveis rendimentos de seu patrimônio.

Os que devem morrer são os outros, os que passaram a vida inteira trabalhando para o enriquecimento das grandes empresas japonesas e multinacionais. Na mentalidade dos poderosos e dos políticos ao seu serviço, os homens não passam de máquinas, que só devem ser mantidos enquanto produzem, de acordo com os manuais de desempenho ótimo.

Aso, em outra ocasião, disse que os idosos são senis, e que devem, eles mesmos, de cuidar de sua saúde. Não podemos, no entanto, ver esse desatino apenas no comportamento do ministro japonês, nem em alguns de seus colegas, que têm espantado o mundo com declarações estapafúrdias. O nível intelectual e ético dos dirigentes do mundo moderno vem decaindo, velozmente, nas últimas décadas. Não há mistério nisso.

 Os verdadeiros donos do mundo sabem escolher seus serviçais e colocá-los no comando dos estados nacionais. São eles, que, mediante o Clube de Bielderbeg e outros centros internacionais desse mesmo poder, decidem como estabelecer suas feitorias em todos os continentes, promovendo a ascensão dos melhores vassalos, aos quais premiam, não só com o governo, mas, também, com as sobras de seu banquete, em que são servidos, além do caviar e do champanhe, o petróleo e os minérios, as concessões ferroviárias e nos modernos e mais rentosos negócios, como os das telecomunicações.

A civilização que conhecemos tem seus dias contados, se não escapar desses cem tiranos que se revezam no domínio do mundo.

Mauro Santayana.

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Sobreviventes: Crônica de um médico



Tenho teorias, sim, tenho algumas, como todos. Uma delas diz que a gente tem três fases na vida. A primeira vai até nascerem os filhos; a segunda vai até a gente encaminhá-los e a terceira fase começa ou recomeça a dois, só que mais velhos.
 
Grande parte de nós sucumbe antes de se completar a segunda fase.
 
 Uma inhaca bateu na gente, no meio médico, neste final de ano quando um grande número de médicos e familiares foi acometido de doenças gravíssimas, algumas rapidamente fatais. A gente, que cuida de gente, evidentemente não está imune a nada. Pelo contrário, visceralmente iguais padecemos das mesmas dores.
 
Na verdade cinquentões ou sessentões, apenas engrossamos as frias estatísticas que mostram que, como gado, seremos embretados, cedo ou tarde, aleatoriamente. Não temos cartões de benefícios e nem poderíamos ter, nem queremos ter porque quando nossos amigos se vão, a gente entende que nossa viagem já está marcada e a passagem também foi comprada.
 
Até os quarenta anos a principal razão de morrer é trauma. Entre os quarenta-sessenta são as causas cardiovasculares. Depois, aos sessenta, as causas de morrer incluem os tumores. Eu, aos cinquenta e cinco, sou uma bomba ambulante que explodirá em um momento qualquer. Alguma coisa vai acontecer e sem previsão.
 
 Não tenho ilusões, meu momento vai chegar, como a todos. Mas, não irei assim, sem vingança. Ela, minha vingança, já começou. Sim, estudei a morte e estudei a vida. Ela, a morte, solerte, não me pegará de pernas curtas. Sorrirei e direi: demorou, hein! Não me verá chorando e nem arrancando os cabelos. Verá um cara jocoso, debochado e irônico. Isso porque minha vingança inclui férias todos os dias de minha existência. Férias quando escrevo, leio, assisto ao futebol, quando corro ali no quartel, quando trabalho, quando jogo conversa fora, quando tomo minha cervejinha.
 
A vida é um presente, não é mesmo? E fui ensinado que quando a gente ganha um presente o melhor que se tem a fazer é aproveitá-lo. É o que faço. Quando a morte chegar perguntarei: tá na hora? Direi: sabe o que eu penso de ti, dona morte, penso que tu és muito infeliz ou, pelo menos, sádica e ensandecida, fria e despudorada assim como as gurias que a gente conheceu na zona. Sim, zona, houve um tempo em que havia isso.
 
Quando será que a morte vai encontrar a morte? Minha nova teoria diz que somos sobreviventes após os cinquenta e poucos anos. Todos os dias tenho teorias, na maioria, idiotas. Mas são minhas, pertencem a minha existência. Sonho em matar a morte... claro, pura estupidez; é só mais uma teoria de um médico que carrega uma bomba, sem data exata para explodir.
 
A vida é boa, mas tem que ser vivida todos os dias, assim como férias que também tem de ser aproveitadas diariamente. É a única maneira de encarar a morte, ou seja, a boa vida. Dar à morte a certeza de que tudo o que poderia ter sido, foi e foi plenamente.
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Viver com as diferenças

O assunto é recorrente e faz parte do cotidiano.
Fala-se e escreve-se muito sobre as diferenças no que se refere à raça, religião, opção sexual, entre outras. É sempre uma questão de relacionamento, nem sempre harmonioso.

 Como seres humanos, nós somos semelhantes no que em relação à espécie, mas diferentes individualmente, pois cada um é único, com características próprias, portanto, inigualável.

Este ponto de vista não se opõe à idéia de que o diferente seja tratado como tal, mesmo porque, em se referindo à instrução há casos de alunos que precisam de atenção distinta em sala de aula. A discussão que aflora nesse contexto é a inclusão, um assunto sempre polêmico porque não se trata de simplesmente inserir uma pessoa com alguma característica diferenciada em uma sala de aula normal.

Isso, por si só, não quer dizer inclusão de fato. Há poucos dias uma notícia televisiva chamava atenção porque um prefeito estaria extinguindo uma escola de atendimento especial e os profissionais que lá trabalhavam seriam transferidos para outros estabelecimentos de ensino padrão.

 Obviamente a iniciativa sofreu críticas de pais dos alunos, dos profissionais e da comunidade. Estaria o prefeito baseado na idéia da inclusão no entendimento acima referido?

O sistema de cotas raciais e outros instrumentos de seleção instituídos pelas autoridades educacionais têm na sua essência o pressuposto de diminuir as diferenças entre os concorrentes ao acesso à Universidade. Obviamente que quando medidas dessas são tomadas, geram controvérsias, inclusive entre os próprios beneficiados.

Viver as diferenças também tem a ver em aceitar algumas convenções estabelecidas pela sociedade como uniões conjugais de sexos iguais, de configurações e formatações familiares outras do que a tradicional.

Viver com as diferenças é ter que engolir tantas barbaridades como só ia acontecer no campo da política partidária.

Coligações entre, ontem inimigos, hoje são comuns sempre tendo em vista chegar ao pódio - poder. Nessas circunstâncias vale tudo, até mesmo se preciso for, “incluir o pai e a mãe no negócio”.

Os envolvidos se esquecem das diferenças, de ontem, das inimizades do passado e tudo o mais, apenas por interesses afins.

Viver com as diferenças, agora que estamos passando por um momento sui generis de eleições extemporâneas na cidade, é aceitar os candidatos concorrentes ao executivo mesmo que eles não nos sejam plenamente do nosso agrado. Foram legitimadas, pelas suas coligações, duas duplas cada uma querendo ascender às escadas do Paço Municipal.

 Já ouvi de pessoas dizendo que não votarão em nenhuma delas, porque, ou não simpatizam com o candidato a prefeito da chapa A e, nem com o do vice da B, ou vice versa. E, como votar ou não é uma opção pessoal os que pensam assim merecem respeito.

São interpretações diferentes de outras e por causa das diferenças, não apenas as acima referidas, mas as de opiniões, de empatia, ou não, cada qual tem o livre arbítrio de escolher – um direito inalienável de liberdade individual.

Para finalizar, é possível viver feliz tomando ciência de notícias do tipo: Parlamentares gastam mais de um milhão de reais (dinheiro público, óbvio) na instalação de banheiras de hidromassagem enquanto falta dinheiro para suprir tantas outras necessidades.

Este acinte, por si só é tema para outro texto. É possível aceitar tanta diferença, ou melhor, diferenças, injustiça, deboche, escárnio de quem deveria dar o exemplo?

 Por: Neivo Zago.

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domingo, 27 de janeiro de 2013

Alienação Parental, um mal silencioso

 
 
 
Segundo os estudiosos, a alienação parental constitui-se em programar a criança para odiar o outro genitor Um assunto tem chamado cada vez mais a atenção de advogados, juízes, promotores, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais. Trata-se da alienação parental.

O conceito é recente, mas, essa forma comportamental está inserida na sociedade há muito tempo. E, justamente, pela novidade em relação à conceituação deste comportamento, muitas pessoas não conseguem compreender no que consiste a alienação parental. Em 1985, a alienação parental foi diagnosticada como uma síndrome (Síndrome da Alienação Parental - SAP), conforme descrição feita pelo psiquiatra norte-americano Richard Alan Gardner, como “um transtorno caracterizado pelo conjunto de sintomas que resultam do processo pelo qual um genitor transforma a consciência de seus filhos, mediante distintas estratégias, com o objetivo de impedir, obstaculizar ou destruir seus vínculos com o outro genitor“.

Segundo os estudiosos, a alienação parental constitui-se em programar a criança para odiar o outro genitor, de forma que, com o passar do tempo e com a repetição deste comportamento, o sentimento de ódio e repúdio acaba inserido no inconsciente infantil de tal forma, que a criança o sente e o vivencia como se o ódio, ao pai ou mãe, fosse dela. Por isso, ela representa uma campanha velada (às vezes, nem tanto) de desconstituição do sujeito, por parte do alienador, obrigando o alienado a conviver com a mentira e com a manipulação da verdade.

Vários são os relatos de casos em que nenhuma das partes envolvidas ou mesmo especialistas davam-se conta de sua existência. Entretanto, silenciosamente, a alienação parental espalhava seus nefastos efeitos pelas famílias, desestruturando-as e acabando com as relações familiares.

Inomináveis são os danos emocionais e psíquicos causados nas crianças e nos adolescentes, pois, os filhos tornam-se instrumento na mão do genitor alienante, para a destruição do outro. Fica o alerta, pois consegue alienar quem tem ascendência sobre a criança, não sendo, necessariamente, alienador apenas o genitor que tem a guarda dos filhos.

Alguns estudos comprovam como alienador o genitor que não residia com a criança. A lei 12.318, de 2010, foi inovadora, conceituando e reconhecendo a Alienação Parental e a Síndrome da Alienação Parental, inserindo-as no Direito brasileiro e inclusive prevendo punições para seus praticantes.

O problema da alienação parental começa a receber a devida atenção do Poder Judiciário, mas não pode ser visto pelos advogados como uma questão de menor importância, eis que não trata, apenas, de fato jurídico, mas também, de fato social relevante e gravíssimo, pois acaba distorcendo o verdadeiro papel dos pais e causando danos ao psicológico das crianças, que podem ser muito difíceis de serem revertidos.

Por: Márcio Sequeira da Silva.

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sábado, 26 de janeiro de 2013

O trânsito precisa ser um assunto discutido


É visível: nos últimos quinze anos, o trânsito mudou. Nesse período, a frota gaúcha mais do que dobrou. Hoje, são mais de cinco milhões de veículos circulando e mais de quatro milhões de condutores. O trânsito tornou-se mais do que complexo: ganhou status de ciência e vários de seus ramos tornaram-se especializações universitárias. Em seu aspecto mais violento, o trânsito tornou-se também uma calamidade pública, reconhecida pela Organização das Nações Unidas como epidemia mundial.  
Espelho da sociedade em que está inserido, o trânsito de hoje reflete toda a complexidade da sociedade moderna e das relações entre as pessoas. Em diversos aspectos, o Código de Trânsito Brasileiro antecipou-se às mudanças sociais que se refletiram no espaço de convívio a que chamamos trânsito. Na terça-feira, 22, completou-se 15 anos de sua vigência, trazendo vários debates e algumas certezas.        

Dentre as certezas, a principal é a de que, nesse período, o trânsito ganhou espaço de discussão, saiu das sombras e está sendo dissecado à luz do dia, mostrando suas fragilidades e seus problemas, mas também suas potencialidades e possibilidades de recuperação. As questões de trânsito são pauta obrigatória de qualquer órgão de imprensa responsável, de qualquer governo sério, de qualquer educador comprometido. Tema de nível planetário - do ponto de vista ecológico, sociológico, econômico - o trânsito bebe das fontes de diversas áreas do conhecimento.        

O etnólogo francês Marc Augé, por exemplo, introduz o importante conceito de não-lugar, espaço que se opõe ao lar, ao espaço personalizado, privado. O não-lugar é por definição um espaço público de passagem, de contatos breves e epidérmicos, tal como shoppings e estações, em que o ser humano se sente ainda mais só, por se perceber um ninguém junto a muitos outros seres humanos igualmente indiferenciados. Ele sente necessidade, em espaços assim, de impor sua individualidade, valorizando símbolos como cartões de crédito ou a carteira de motorista. Daí podemos intuir que, quanto mais impessoal e anódino for o espaço público, mais os seres humanos que nele circulam tenderão a comportamentos fora do padrão - seja pichando uma parede, seja desrespeitando leis de trânsito.        

Conhecimentos como esse nos autorizam a avançar mudanças. Se o nascimento do CTB, há 15 anos, abriu espaço para questionamentos e muitos debates, hoje vivemos a época da consolidação das normas, estas consideradas como o social resolvido, a problemática já solucionada e cristalizada. O desafio está, porém, em aplicá-las da forma mais adequada aos seres humanos que somos - caso contrário, elas serão letra morta ou, pior, instrumentos de domínio, a exigir constante controle dos corações e das mentes. Precisamos trabalhar o trânsito com a amplitude que lhe é própria, humanizando-o, tornando-o inclusivo, possibilitando protagonismo e expansão humana de todos e de cada um. No dia em que o conseguirmos, infrações e os consequentes acidentes não serão mais do que histórias de um passado que ninguém gostará de recordar.          


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