Uma das coisas que me impressionam é
o conceito de herói que seguimentos sociais da classe dominante impõem sobre a
opinião pública, que acabam por se consolidar como senso comum e como verdade
aceita por todos.
No dia 28 de dezembro de 2014 eu passava por um televisor ligado na TV Globo no
programa matinal Esporte Espetacular. Chamou-me a atenção a emoção com que a
produção e apresentadores tentavam recordar de pessoas do mundo do esporte que
eles chamavam de heróis. Umas já mortas e outras como que mortas vivas, nas
quais o programa insuflava vida e admiração.
Uma delas era Ayrton Senna. Para emocionar apresentaram senas do acidente que o
vitimou; de derrotas que vivenciou em sua carreira automobilística e que
superou graças a sua alegada genialidade e vitórias obtidas em disputas
difíceis e complicadas.
Não é só porque não gosto de corrida automobilística, que não tem nada de povo
nem de interesse nacional, mas não consigo ver nada de heroico em Ayrton Senna.
Claro, vejo na história daquele fantástico piloto grandes esforços pessoais e
inteligência para vencer disputas, atuando em poderosas empresas que investem
bilhões de dólares em bolsas e no sistema financeiro, mas heroísmo nunca vi e
não concordo que sua biografia seja vista como tal.
O que Ayrton fez por seu povo? Que fez pelo Brasil? Quais suas contribuições em
favor do desenvolvimento nacional? Quais suas obras sociais?
Não desconheço que sua família usa seu prestígio e seu nome para gestar uma ONG
assistencialista, mas que não tem nenhum peso no Brasil em favor de nosso povo.
Que herói foi ou é Ayrton Senna? Penso que a burguesia nacional assim o
considera porque o esportista de carros de corrida vendia produtos e servia de
alavanca de audiência da TV Globo, correndo por várias pistas luxuosas do
mundo, por onde se derramava muito dinheiro provindo do mundo subdesenvolvido e
proletário.
Depois, no mesmo programa global, falou-se no “fenômeno” Ronaldo. Outro. Que
contribuições o Ronaldo deu ou dá ao Brasil, de quem chegou até sentir vergonha
num momento em que nosso País foi mais atacado e ameaçado de golpes durante a
Copa em 2014?
Como pode chamar-se de herói a alguém que saiu das favelas e virou as costas
para os pobres e para o povo, plenamente satisfeito e embasbacado com o mundo
acomodado e conservador da burguesia nacional?
O Programa Espetacular ainda elencou outro “herói”. Apresentou Neymar, o
jogador do Barcelona. Somente do Barcelona, porque no Brasil o tal não joga
nada. Que herói é esse guri? Qual é sua consciência social? Qual é seu
compromisso com o povo brasileiro? Qual foi sua postura durante a campanha
eleitoral à presidência do Brasil? Não poderia ser pior, como a do seu ídolo
Ronaldo.
Quando o Neymar abre a boca nas entrevistas de TVs é uma tristeza. Suas palavras
são balões vazios saídos de uma cabeça oca, sem nenhum conteúdo sério e digno
de respeito. Suas risadas desconexas e gestos são demonstrativos de enorme
futilidade mental desse personagem.
Que heróis são Senna, Ronaldo e Neymar Jr? São tão heróis quantos os guerreiros
de Pedro Bial, personagens de seu programa pornográfico e lixo televisivo BBB,
que só interessa aos que têm os meios de comunicação como entorpecimento e
traição social.
São heróis de pés de barro. São “heróis” cujos pés pisam no ar, fora e
desconectados da terra pisada e trabalhada pelo povo que eles não representam.
Flutuam sobre o povo que ajudam a explorar, enrolar e enganar.
A noção de heróis é experiência profundamente humana que vem desde muito cedo
desde a antiguidade. Define-se como ações que superam quase todas as
possibilidades de limites do ser humano. Geralmente são heróis ou heroínas as
pessoas que se dedicaram a fazer o bem muito mais ao outro, ao próximo, à
coletividade, em grande escala, ao ponto de sacrificar interesses pessoais e a
própria vida como pessoa física.
Heróis mesmo são Zumbi, Tiradentes, Anita Garibaldi, Carlos Marighela, Luiz
Carlos Prestes e tantos que se entregaram ao povo, sem concessões aos
traidores.
Como líder do Quilombola dos Palmares, Zumbi, em defesa de negros, indígenas e
brancos pobres, lutou pela edificação de uma república onde houvesse justiça
social. Na Serra da Barriga organizou uma sofisticada sociedade onde todos seus
integrantes trabalhavam e repartiam os bens entre si, eliminando a escravidão e
as torturas.
Graças à sua luta foi assassinado porque traído por companheiros modelo Senna,
Ronaldo, Neymar e Pelé, que não estão nem aí para o que se passa com o nosso
povo.
Herói mesmo é Joaquim José Silva Xavier, o Tiradentes. Este herói nacional, ao
perceber o nível de exploração imposta pela coroa de Portugal, juntou-se aos
padres Carlos Correia de Toledo e Melo, José da Silva e Oliveira Rolim e Manuel
Rodrigues da Costa, a poetas, a intelectuais e a militares para proclamar uma
república independente da Europa.
Mesmo bem antes das concepções socialistas e
das definições modernas de nação o seu projeto era o de estabelecer um governo
de caráter republicano, de criar indústrias no País e universidades.
O conceito
de república dos inconfidentes não incluía forças armadas e militares como as
conhecemos hoje. Em vez disso, toda a população deveria usar armas, em forma de
milícias populares, quando todos deveriam se sentir responsáveis pela segurança
da nova sociedade.
Por “ofender” os interesses dos colonizadores e proprietários de terras e de
escravos, Tiradentes traído foi condenado à forca e esquartejado.
Tiradentes, sim, foi herói e digno de assim ser reconhecido. Ante a morte
assumiu sozinho a responsabilidade pela inconfidência, não temendo seu
compromisso com a história.
Anita Garibaldi, ainda com 18 anos, afundada num casamento forçado pelo
contexto de miséria e de pobreza, não fugiu do amor que José Garibaldi
despertou no seu coração.
O amor de Anita era duplo e não romântico e mesquinho. Ao deparar-se com José
ergueu-se para nova relação como mulher, esposa, mãe e revolucionária de duas
pátrias: Brasil e Itália.
No Brasil, nos limites do que os revolucionários farroupilhas podiam ver, a
luta era a mesma que animava Tiradentes. Anita uniu-se ao guerrilheiro José
Garibaldi para defender os interesses dos trabalhadores e negros do sul,
pensando proclamar no Rio Grande do Sul um País independente e livre da
exploração colonial.
Anita Garibaldi, sim, era heroína brasileira. Nunca se rendeu ao inimigo e amou
apaixonadamente um homem e uma revolução, de modo indissociável.
Heróis são os que caminham as estradas da revolução, os que se rebelam contra
as injustiças e lutam pela paz entre irmãos.
Os outros não são heróis. São vendidos e puxa-saco, por mais que muita gente se
emocione com eles. No máximo são heróis de pés de barro. Não constroem a
história.
(Dom Orvandil Moreira Barbosa, editor do blog
+Cartas e Reflexões Proféticas (www.cartasprofeticas.org), presidente da
Ibrapaz, ativista da Anistia Internacional e bispo da Diocese Brasil Central da
Igreja Anglicana)
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