domingo, 23 de dezembro de 2012

Duas vezes não!


 Enquanto esperamos a chegada do Papai Noel, bom é uma pitada de humor, se é que é possível. A continuidade da espécie humana, considerando que o propalado fim do Mundo, não passou de alarme falso e, por certo, brincadeira de mau gosto dos Maias, terminou sendo muito bom, pelo menos para nós brasileiros.

Já imaginaram que se realmente o mundo tivesse o fim previsto, certamente uma quantidade inimaginável de almas, estaria entrando no "elevador vermelho" - aquele que desce ao inferno - para se banhar no mar de magma derretido,  respirando enxofre e saboreando refresco de estricnina?

No entanto, acreditamos que essa mistura, oferecida pelo presidente da entidade, ainda seria divertido, não fosse a necessidade de continuar aturando uma grande parte dos políticos brasileiros que, sem dúvida, nos acompanhariam nessa missão, sem retorno.

Acreditamos que lá nas profundezas da Terra, onde o chifrudo "dá as cartas", a situação é caótica, porque nem sequer existe disputa entre policia e crime organizado, pelo domínio da área, como acontece nos morros e favelas do Brasil. Farmácias, se é que existem, devem estar cobrando com percentual de lucro em torno de mil por cento, pois caso contrário, que inferno seria esse?

Imaginemos que o povo brasileiro teria de continuar enjaulado dentro de casa, com grades nas portas e janelas, enquanto Elias Maluco, Papagaio e Fernandinho Beira-Mar, em companhia de muitos outros, estariam desfilando pelas ruas, sentindo-se em casa, enquanto lamentaríamos a ausência do Barbosa, que certamente teria seguido no elevador azul.

Sarney continuaria sendo o presidente do Senado; a turma do mensalão, do abafamento das CPIs, que sempre resultam em nada; dos que aprovam, em cinco minutos, quando se trata de auto-benefício, mas esquecem o povo e, especialmente, os aposentados, oferecendo a estes sempre um percentual muito menor dos reajustes oferecidos ao salário mínimo, dos responsáveis pela saúde pública, pela educação e outros setores importantes, certamente seriam promovidos a grau superior, em virtude da comprovação de que passaram, com mérito, no vestibular da universidade da maldade, realizado aqui na Terra.

Os que não respeitam o meio-ambiente, poluindo o planeta, os que entendem que as estradas são propriedades particulares e, por isso mesmo, podem encher a cara e colocar a integridade física dos demais em risco, quando não causam acidentes que ceifam vidas inocentes estariam em local privilegiado.

Fora de nossas fronteiras e até mesmo alguns que aqui vivem esbanjando dinheiro, mais interessados na auto-promoção e na luta pelo domínio do planeta,  que poderiam ajudar a eliminar a fome, a sede e a miséria absoluta em vários países do chamado Terceiro Mundo, mas não o fazem, novamente estariam em posição de liderança.

Enfim, o Mundo não acabou e a certeza que, aqui neste planeta, tais elementos não serão eternos, já basta para um super-alivio.



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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O dia em que Obama chorou diante do mundo


Barack Obama limpou com as pontas dos dedos as lágrimas que escorriam dos cantos dos olhos. Com ar abatido e a elegância habitual, iniciou diante da mídia lobalizada a dança catártica encenada habitualmente para reduzir a já tradicional expressão da cultura estadunidense da morte em mero ato individual desviante. As lágrimas presidências foram seguidas pelos tradicionais cultos ecumênicos; vigias noturnas à luz de velas; entrevistas a policiais e psiquiatras; relatos de atos heróicos durante os sucessos; declarações controladas de pais, familiares e amigos.

O ataque manteve o script de sempre, sem a dramatização das capas pretas de Littleton que, há doze anos, celebrizaram essa forma de explosão juvenil nos USA, ou a fantasia do vilão Jocker, na lançamento do novo Batman, há poucos meses. Como é comum, o protagonista foi um jovem branco, de classe média, sem precedentes de violência. De novo, apenas as crianças indefesas, talvez para facilitar a conquista da primazia, nem que seja fugidia, do maior número de vítimas.

Não é a disseminação de armas a responsável pelos massacres periódicos nos Estados Unidos. Quem mata não é a arma, mas quem a usa, ainda que ela facilite a obra do assassino. Na Suíça, as armas de guerra estão à portada da mão da população juvenil, sem que disso resulte as mortandades habituais nos Estados Unidos.

Terem sido usadas no massacre armas compradas legalmente, por uma senhora, mãe de dois jovens, coloca já os limites das propostas de restrição da posse de armas, como dissuasivo de dramas semelhantes. Medida que o presidente chorão furtou-se cuidadosamente de propor nas passadas eleições, temendo as inevitáveis seqüelas eleitorais.

A hegemonia imperialista necessita exige a metabolização do uso da violência mortal como instrumento ético e legal. Ela necessita população solidária, moral e fisicamente, da cultura da dominação pela força, do direito da distribuição da morte como profilaxia do criminoso, do malvado, do inimigo, do desviante. Matar é comumente dever e, sobretudo, poder.

Desde crianças, os estadunidenses são engatilhados para matar. A morte do bandido, com dor e sofrimento se possível, habita o âmago da cultura nacional dominante, celebrada pela televisão, pelo cinema, pela escola, pelas igrejas, pelo Estado. Heróis nacionais, como o xerife, o caubói, o fuzileiro, o super-herói, são glorificados na epifania da aniquilação física implacável do inimigo. A execução de Bin Laden, sem julgamento, desarmado, em país estrangeiro, transformou-se em uma enorme festa nacional.

Na segurança da Casa Branca, Barack Obama decide semanalmente os opositores a serem eliminados pelos aviões não tripulados, no Afeganistão, no Paquistão, onde for necessário e possível. As execuções são divulgadas pela mídia para o regozijo nacional. Sequer os milhares de populares ceifados como perdas marginais [esperadas e inesperadas] dos drones causam lágrimas no Crocodilo Mor e na população solidária na distribuição da justiça final, extra-judiciária e extra-territorial.

A arma individual é a principal liturgia da religião da morte. Ela entrega a quem a empunha o poder soberano de aniquilar o mal e impor o bem, de distribuir o castigo e a morte. No Brasil, o pai orgulho leva o filho pequeno para ver seu time preferido; nos USA, ensina o pimpolho a manejar e disparar, para matar, caso seja necessário. Um pouco menos da metade da população estadunidense possuí trezentos milhões de armas individuais – e elas são compradas, hoje, como jamais. Os suicídios anuais com armas o são quase quinze mil.

A cultura da arma e da morte facilita que jovens desavisados engajem-se periodicamente como soldados, por baixo preço, transformando-se fora das fronteiras em veteranos orgulhosos de matar pelo país. Nos USA, jovens estressados, desesperados, infelizes, mentalmente enfermos, expressam também suas angústias no álcool, nas drogas, em depredações e agressões mais ou menos banais e no suicídio.

Entre a juventude estadunidense, é forte a atração da realização do poder demiúrgico da arma de fogo, sobre desafetos ou estranhos, forma de socialização perversa e perseguição patológica de superação da dor individual e do vazio existencial na materialização de banquete de sangue, diante dos olhos da nação e do mundo.

Possivelmente, muito logo, conheceremos novos sucessos semelhantes aos ocorridos em Newtown, Connecticut, ainda mais que o suicídio difubnde-se como epidemia entre a população inclinada a tais atos, quando midiatizado.
 por Mário Maestri.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ahhhhh, meu saco!


É assim mesmo, ou tudo isso é fruto de alguma viagem mental obscura digna de algum texto sórdido de Hunter S. Thompson? Já faz alguns meses que venho me questionando com essa frase sobre o mundo, e melhor: sobre as pessoas. Existem coisas que realmente não consigo compreender de forma sóbria ou, como convém socialmente, de forma normal.

Decididamente existem situações, cenas e coisas que beiram o fantástico e o bizarro, justamente para quebrar com as convenções estáticas, estéticas e patéticas que somos obrigados a engolir goela abaixo porque simplesmente faz parte da vida em grupo. Parece que vivemos uma espécie de embriaguez social, só que de forma contraria ao efeito que o álcool causa em nosso corpo quando abusamos dele.

E tudo isso me leva a crer que jamais conseguiremos viver (e quem dirá conviver) com outros seres da mesma espécie dentro de um território previamente demarcado. E afirmo isso com veemência, pois a cada dia que passa parece que evoluímos como seres humanos. Só que de trás para frente.

Abusamos uns dos outros. Culpamos os que estão mais próximos pelos erros que cometemos. Falamos mal de políticos ladrões, mas não nos importamos em passar a perna em quem quer que seja apenas para economizar uns trocados. E por aí segue.

Vejo avanço na indústria farmacêutica e, ao mesmo tempo, vejo gente morrendo por falta de atendimento. Observo médicos indignados porque seu paciente agradeceu a Deus por ter se curado, e não ao profissional todo poderoso que está ali fazendo o seu trabalho e que não deve esperar nada, pois não fez mais do que a sua obrigação. Noto o medo nos olhos dos outros sempre que alguém menos provido resolve cruzar a rua lado a lado. E as horas seguem assim, dentro desta cadência sinistra de desconfiança, medo e indiferença.

E depois eu sou obrigado a ouvir que Bukowski, Thompson e Fante são homens de textos nada enaltecedores. Balela! Falácia! Mentira! Blasfêmia! Prefiro ficar com eles, que ao menos são sinceros, do que ter de depositar minha confiança, minhas expectativas e até minha vida nas mãos de alguém sem o brilho da vida nos olhos.

Um brinde aos seres verdadeiros e sinceros. Sejam eles quem forem. E uma banana aos falastrões falsários que recheiam o espaço existente entre o céu e a Terra com suas frustrações escronchas lotadas de um moralismo barato e repleto de demagogia. Quero conviver com pessoas e não com organismos estranhos que apenas buscam um hospedeiro desavisado.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

Sobre segundas chances...



Nada estava bom para ela. Se chovia, a culpa era do tempo ruim. Se fizesse sol, a culpa era do calor. E assim ela seguia: reclamando e xingando, sem ouvir nenhuma canção. E, como para todo o mundo, os anos foram passando deixando marcas irreversíveis em seu corpo e mente.

Era uma mulher rabugenta, porém muito quieta. Raramente opinava sobre algo. Toda a lamentação era interna, velada, intrincada dentro de si. Não tinha homem pelo simples fato de que nenhum era bom o suficiente. Amigos já não cultivava mais, pois os poucos que tinha ela afastou. Era uma mulher só, perdida, amargurada dentro de seus rancores existenciais, pelo simples fato de que acreditava ter nascido na época errada. Era uma perdida em pleno século XXI.

Mesmo assim se dizia inteligente. Seu QI beirava os 200 e sabia de tudo. Mecânica? Física quântica? Medicina? Construção Civil? Tudo era demasiado simples para o seu intelecto. E para compreender tais assuntos não precisava cursar faculdade e nem se especializar. Bastava procurar informações nos lugares certos e ler tudo sobre o tema. “Simples assim”, dizia. Não ignorava nada, mas também nada dominava, pois se colocou no patamar de mestre e desaprendeu a aprender.

Trabalho fixo não fazia parte de sua vida. Queria vaga de emprego sim, mas emprego de chefe, de diretora, de dona de empresa. E reclamava quando nada conseguia. “Quantos incompetentes estão ocupando as vagas que deveriam ser minhas?”, regurgitava entre um resmungo em outro. Pobre coitada... seu mundo não tinha norte. E se teve, algum dia, estava bem perdido em um passado longínquo e infeliz.

Uma casa, para chamar de lar, há tempos não existia. Perambulava de um lado para outro sem se apegar a nada e nem ninguém. Da família já nem sabia mais. Não tinha nenhuma pessoa e nem a ela mesmo. Era apenas um corpo pálido vagando na imensidão solitária do mundo. E assim ela foi vivendo, ano após ano, dia após dia, batida após batida e sem mudar o seu jeito.

E ela foi murchando, se encolhendo e deixando de viver. Não era uma mulher ruim. Pelo contrário. Apenas esqueceu da vida; deixou ela de lado. Não tinha e nem fazia planos. Apenas existia. Até que um belo dia morreu. E não deixou nada. Ela viveu uma vida sem luz, sem deixar sua marca, seu nome, seu legado. Ninguém sentiu falta, pois já havia deixado de existir há muito tempo. E hoje ela é apenas mais uma entre tantas existências fracassadas. Certamente deve estar pensando consigo neste exato momento: “Da próxima vez, em uma outra vida, vou voltar renovada e pronta”. Que pena... é uma lástima deixar tudo para resolver outro dia e nem saber se uma segunda chance lhe será dada.


por Daniel Bittencourt.

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sábado, 15 de dezembro de 2012

Ah se fosse assim!


Em todos os noticiários econômicos, qualquer artigo científico ou em um simples papo no dia a dia, o comentário não deixa de ser outro. O Brasil vive uma nova era. Uma era que projeta o país rumo ao patamar das economias mais desenvolvidas do planeta.

Esse fato não deve ser mérito de apenas um governo, mas sim de uma sucessão de continuidade nas políticas adotadas durante os últimos 40 anos. Falo em 40 anos só para citar alguns índices que nos permitem a comparação com outros tempos.

Na década de 70 a expectativa de vida do brasileiro não passava dos 48 anos. Apenas um, em mais de dez habitantes possuía carro e a
renda per capita era mais baixa de que países como o Uruguai e a Argentina, não ultrapassando os 800 dólares.

Olhando apenas esses três indicadores podemos pensar que hoje vivemos no paraíso. A expectativa de vida atingiu os 74 anos em 2012. Já observamos um carro para cada cinco habitantes e a renda per capita já ultrapassa os 12 mil dólares.

Parece que vivemos em um país de primeiro mundo. Parece. Tínhamos tudo para já ser uma super potência, porém ainda estamos no meio do caminho. Muita coisa ainda precisa ser feita e dependemos muito de nossos governos.

Nesse meio tempo deixamos de ser um país minifundiário, com agricultura de subsistência e nos tornamos uma das maiores potencias mundiais no ramo do agronegócio. Se tudo der certo, colheremos, pela primeira vez na história, uma safra de soja maior do que a dos Estados Unidos, país que não impõem barreiras no desenvolvimento de suas tecnologias.

Contudo, não podemos depender única e exclusivamente da boa vontade de São Pedro para aumentar nossa lucratividade. Grande parte da margem que poderia ser gerada com a melhora na infraestrutura, diga-se de passagem: escoamento, armazenagem, tecnologia e exportação, é perdida pelo caminho. Quem dera se nossa nação tivesse metade da linha férrea dos norte-americanos. Ou a capacidade de embarque/desembarque do PIOR porto da China.

Mas não. O que impede de caminharmos com passos mais largos rumo ao desenvolvimento é a incapacidade de tolerância sobre certos pontos que facilitariam nossas vidas. A burocracia, por exemplo, que faz com que nossa média de dias para abrir uma empresa seja superior a 100, enquanto na Singapura não passa de três, é uma temerosa questão.

Se não tivéssemos que sustentar tantos deputados, senadores e ministros, fora seus assessores que ajudam a consumir uma das maiores fatias do
dinheiro público já visto na história, nos colocando no topo da lista de países que mais gastam com parlamentares, com certeza teríamos mais dinheiro para investimentos em áreas prioritárias como saúde e educação.

A educação poderia nos ajudar a formar engenheiros, cientistas e até mesmo políticos que pensassem no bom desenvolvimento do país. A saúde ajudaria a aumentar nossa expectativa de vida e uma infraestrutura digna maximizaria o lucro de todos os empresários. Ah, se fosse assim!


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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Um presente ao ladrão “bonzinho”

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou a proposta que reduz as penas dos crimes contra o patrimônio

O título desse artigo chama a atenção para algo que o futuro nos reserva, afinal, quem cometer furto e estelionato e não praticar violência poderá, em breve, ficar menos tempo na cadeia. A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou a proposta que reduz as penas dos crimes contra o patrimônio.

O novo texto diminui os limites para o furto simples. Se hoje a reclusão varia de um a quatro anos e multa, no futuro poderá cair para seis meses a dois anos ou multa. A justificativa do relator da proposta, deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), de que será possível assim evitar que a cadeia seja uma “pós-graduação do crime”, por aproximar autores de pequenos delitos dos piores criminosos, perde-se pelo discurso. Afinal, se o problema fosse apenas esse, bastaria aumentar o controle nos presídios e separá-los.

O alívio na condenção dos bandidos “menos perigoso”, que ganhou ainda na CCJ o agravamento da punição a quem cometer crimes com violência, como os contra a vida, uma espécie de compensação para agradar a sociedade, leva a uma sensação de que as vítimas continuarão desprotegidas e que poderão, cada vez mais, serem alvos dos ataques. E furto, com ou sem violência, é sempre furto. Deixa homens e mulheres impotentes e revoltados diante da falta de segurança.

As mudanças propostas estão previstas no Anteprojeto 3/12, da Subcomissão Especial de Crimes e Penas, onde estão sendo analisadas punições previstas no Código Penal para diversos crimes. A ideia é restabelecer a proporção entre as penas e as gravidades dos delitos.

Pode-se prever, também, se a proposta for levada adiante, manifestações de policiais e delegados, responsáveis pela linha de frente no combate ao crime. Se atualmente já existem reclamações com o discurso uniformizado - “a gente prende e a Justiça solta” -, o que esperar dessas mesmas vozes quando as penas diminuírem?

A ideia de reduzir a sentença para quem comete crimes pequenos e poupa as vítimas de algum tipo de violência é aceitar a prática como um fenômeno natural nos dias de hoje. Um olhar complacente da legislação a quem costuma ser figura conhecida nas delegacias do país.

Outras medidas que recebem análise da CCJ têm a mesma linha e aliviam as penas a quem comete crimes. Uma delas, por exemplo, embora aumente em 1/3 a pena para o furto qualificado caso seja de bem público, autoriza o juiz a reduzi-la se a coisa furtada for de pequeno valor. Ser “ladrão de galinha” no Brasil muito em breve terá suas vantagens.


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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Caravelas, onças e picadas


Se a falsidade humana já não é bem aceita, a do mosquito é imperdoável


Quando Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, depois de o Brasil já ter sido descoberto pelos índios, os espanhóis, os chineses e todos os povos que passaram por aqui mas esqueceram de pedir usucapião, a vida ainda era bem tranquila e mosquitos e onças eram os únicos incômodos. Das onças o país conseguiu se livrar racionalmente ao longo dos séculos. Ninguém racionou bala para dizimá-las e hoje elas é que são incomodadas por nós nos zoológicos. Já os mosquitos, não teve jeito. Se eram muitos em 1500, hoje são muito mais. É o único ser vivo dotado da incrível capacidade de estragar uma noite inteira de sono, ao lado do vizinho que resolve dar uma festa e não convidar quem mora ao lado.

Os mosquitos evoluíram com o país. Criaram fórmulas para sobreviver à guerra constante que travam contra a palma de nossas mãos. Eu acredito que eles também desenvolveram inteligência e passaram a recorrer à simulação a favor de uma picada. A gente fecha o quarto, descarrega um tubo inteiro de inseticida e respira metade do veneno até vê-los caindo em espiral, mortos, como avião metralhado. Falsidade pura. É só a futura vítima deixar o quarto, tossindo e intoxicada, que eles erguem a cabeça e retomam o voo. Se a falsidade humana já não é bem aceita, a do mosquito é imperdoável.

Os inoculadores também aprenderam táticas de guerra. A pessoa tranca a casa inteira lá pelas 19h, quando o sol ainda está alto e convidativo. Nenhum integrante da família tem autorização, porém, para abrir portas e janelas. A ordem é não colocar os pés na rua e caçar os mosquitos, custe o que custar. Incrivelmente nenhum representante dos sugadores é encontrado. Não estão nas paredes, atrás dos móveis, nas cortinas, dentro da casinha do cachorro ou nos cabelos da vó que dorme e baba no sofá, enquanto o ventilador resfria suas pernas. Mas eis que chega a noite e aquele barulho de esquadrilha ganha o ar. E como isso se explica? Camuflagem. Escolhem pontos estratégicos para se esconder. O local onde nenhum humano pensaria em procurar: o armário usado para guardar o veneno contra os mosquitos. Como o produto não tem mais efeito mesmo, ali passou a ser o porto seguro deles. Estratégia militar.

Eu digo para vocês, os pernilongos de hoje pensam. Logo vão competir com cães, gatos, peixes e ratos que passaram a ser chamados de esquilos na lista dos animais domésticos preferidos pelas crianças.

- Querido, tem que que comprar mais ração para o cachorro. E não esquece de trazer uma bolsa de sangue para o Fliti.

Para mim também não será surpresa alguma se as fábricas de veneno reconhecerem a falência de seus produtos e mudarem o foco mercadológico. Abandonarem os tubos e aparelhos elétricos e passarem a investir em armas de baixo calibre. Já vejo até o slogan: “M-22, a única com silenciador e mira noturna para você ter uma noite tranquila de sono”. Vai ter que ser na bala mesmo, assim como fizemos com as onças depois que Cabral desceu nessas terras e ficou todo picado na sua primeira noite tropical.


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Justiça condena oito empresas de cartões de crédito por cobranças indevidas


A Justiça Federal condenou hoje (12) oito administradoras de cartões de crédito por cobranças indevidas de encargos dos clientes. O juízo da 30ª Vara Federal da capital declarou inválidas as cláusulas contratuais que permitem a cobrança da taxa de garantia, de administração, de comissão de permanência cumulada com outros contratuais e de multa moratória superior a 2% sobre a prestação devida.

Os clientes dos cartões que foram prejudicados devem entrar com ação na Justiça Federal pedindo a apuração do prejuízo total e o valor do dano sofrido. A Justiça também decidiu que as administradoras devem indenizar com o dobro do valor os consumidores lesados e compensá-los por eventuais prejuízos morais e materiais.

As empresas punidas foram: Credicard, Real, Itaucard, Fininvest, Banco do Brasil, Bradesco, Federal Card (da Caixa Econômica) e Banerj.

Para o juiz Márcio Barra Lima, os contratos dos cartões de crédito administrados pelas empresas condenadas, como contratos de adesão, apresentavam alguns pontos abusivos que permitiam a cobrança de encargos não autorizados, como a chamada cláusula mandato, que permitia à administradora autonomia para renegociar a dívida do titular do cartão no mercado, inclusive mediante financiamento feito em seu nome com outras instituições, sem constar nenhuma informação sobre os encargos e da remuneração pelos serviços.

Ainda segundo a decisão, a cobrança cumulada de comissão de permanência com outros encargos como juros e correção monetária sobrecarrega o consumidor, sendo considerada abusiva a estipulação de juros a 2% sobre prestação completa por afrontar o Artigo 52 do Código de Defesa do Consumidor.

Em nota, a Itaucard, que incorporou a Finivest e a Banerj, diz que ainda não recebeu o comunicado oficial sobre a decisão. "O Itaú Unibanco reforça que suas práticas encontram-se totalmente adequadas à jurisprudência e ao Código de Defesa do Consumidor", diz. A instituição declara também que não exerce a cobrança de comissão de permanência somada a juros moratórios, nem cobra multa superior a 2%".

O Bradesco, por meio de nota, informou que não se pronuncia sobre casos que estão sob o exame da Justiça. "As providências serão tomadas em juízo". O Citibank, dono da Credicard, declarou que "não comenta processo em tramitação, sem decisão definitiva". As demais administradoras não se manifestaram.

Fonte: Agência Brasil.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Pessoa humana, ser individual ou pessoal?

Essa é uma das questões de fundo no debate ideológico entre esquerda e direita. Nossa natureza individual é algo que salta aos olhos de modo permanente. Quando tropeço numa pedra o pé que dói é o meu e o de ninguém mais. Cada um de nós tem a sua memória, a sua história, a sua própria vocação, seus gostos e desgostos. Nossa carteira de identidade apresenta uma impressão digital que, como qualquer célula de nosso corpo, é única, própria e irrepetível. Se cada um de nós não existisse e quisesse Deus criar um outro ser como nós, precisaria recriar nossos pais, e os pais deles, e assim sucessivamente, até que toda a Criação tivesse sido refeita.

Contudo, esse ser assim tão individual é, também, um ser social. Somos sociais por carência (precisamos dos demais) e por abundância (podemos e devemos contribuir para o conjunto da sociedade em que vivemos). Somos um elo da sociedade presente e um elo social do passado com o futuro. Nossas atitudes, nossa cultura, nossos hábitos são aprendidos do meio social. Se, a exemplo de Tarzan, fôssemos criados na floresta, por um bando de chimpanzés, sem contato com outros seres da própria espécie, nossos comportamentos reproduziriam em tudo o que fosse possível o ambiente social em que estaríamos inseridos. E ao chegar a idade adulta, se não nos aparecesse a Jane, acabaríamos casando com a Chita...

No entanto, apesar da obviedade dessas constatações antropológicas, o fato é que as ideologias deste século penduraram-se nos fios do individualismo e do coletivismo. Para o individualismo o ser humano é um indivíduo movido pelo interesse próprio e sua natureza é puramente individual ou dominantemente individual. Para os coletivismos o ser humano é puramente social ou dominantemente social. Praticamente toda a confusão que uns e outros operaram ao longo de quase dois séculos decorre desse erro fundamental.

Para o individualismo liberal, uma de suas virtudes consiste em extrair do egoísmo os impulsos propulsores do interesse próprio para estimular as atividades econômicas. Entendem seus pensadores que as necessidades humanas são mais plenamente atendidas quando todos os indivíduos buscam suas conveniências afanosa e irrestritamente. Note-se que há uma lógica sedutora nesse conceito porque a experiência mostra que as pessoas tendem a se dedicar mais ao que lhes convém pessoalmente do que ao interesse alheio. Já para o coletivismo, o interesse próprio precisa ser eliminado como condição indispensável a que o interesse coletivo prevaleça. A busca egoísta das conveniências individuais estabeleceria a prevalência dos mais fortes sobre os mais débeis com graves danos ao equilíbrio social. Também aqui há uma lógica sedutora, pois é exatamente isso o que a experiência exibe ao observador atento.

Como admitir-se que duas noções antagônicas possam estar corretas? Ou, ainda: como podem ambas estar erradas embora coincidam com o que se observa? Onde está, afinal, a verdade? Ela não está em qualquer das duas (como revelaram todas as práticas individualistas e coletivistas). Para encontrar-se a verdade é preciso reconhecer aquilo que a doutrina cristã ensina e a experiência comprova: a pessoa é um ser ao mesmo tempo individual e social. O bem da pessoa e da sociedade não pode ser atendido por uma ordem que desconheça essa dupla condição. Assim, o Estado não existe para garantir os espaços do egoísmo nem para extinguir o interesse individual.

Cabe-lhe, ao contrário, atuar no sentido de que o interesse de cada um se ponha a serviço do bem comum, promovendo relações sociais solidárias. Produzir isso é o papel da atividade política.

Seguidn viés oposto dizia-me alguém, dias atrás: mas o homem é naturalmente egoísta. E eu complementei: e é, também, naturalmente comodista, naturalmente hedonista, naturalmente predador, o que não significa que no confronto natural entre os vícios e as virtudes se deva deixar dominar por aqueles em detrimento destas. É bom saber, por fim, que assim como o individualismo estimula o egoísmo de cada um, o coletivismo - como a história, amplamente, demonstrou - organiza esse mesmo egoísmo em modelos políticos totalitários.

A humanidade muito apanhou no brutal confronto entre o individualismo e o coletivismo. Este, criando estruturas de dominação social para inibir a expressão da individualidade; aquele, quando muito generoso, chegando ao social como um episódico ensaio de amabilidade, apropriado para as horas livres. E nas horas ocupadas? Impondo estruturas de dominação individual.

Fora do barco da solidariedade a sociedade naufraga.



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