quinta-feira, 2 de abril de 2026

OS CELULARES E A NOVA GERAÇÃO ANSIOSA

O psicólogo Jonathan Haidt publicou, no ano passado, o livro “A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais”, obra que se tornou imediatamente um bestseller internacional. Haidt esteve no Brasil para promover o livro, e quem tiver interesse pode encontrar na internet a entrevista que ele concedeu ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Professor da Universidade de Nova York, Haidt já foi apontado pelas revistas Foreign Policy e Prospect como um dos maiores pensadores da atualidade.

Crianças e adolescentes em perigo

           Segundo o psicólogo americano, crianças e jovens estão em perigo, tornando-se vítimas de uma epidemia de transtornos mentais. Desde o início dos anos 2010, a infância tradicional — marcada por brincadeiras ao ar livre e interações presenciais — vem sendo substituída por uma infância centrada nos celulares e nas redes sociais. Esse novo padrão de comportamento transformou-se em um verdadeiro vício e provocou o aumento das taxas de depressão, ansiedade, insônia e insegurança social. O uso excessivo das telas estaria afetando o desenvolvimento do córtex pré-frontal, região responsável pelo autocontrole e pela tomada de decisões, especialmente vulnerável durante a adolescência.      

As meninas são mais afetadas

           Jonathan Haidt destaca que as redes sociais afetam mais as meninas, sobretudo por meio da comparação social e do bullying digital. Estudos apontam uma relação entre o uso intenso de mídias sociais e o aumento de casos de suicídio entre adolescentes do sexo feminino. Já os meninos tendem a se refugiar em jogos e mundos virtuais, o que pode gerar isolamento. O fato é que a dependência das telas se transformou em uma espécie de “cracolândia digital”.

Planos de ação para reduzir os malefícios do excesso digital

           Haidt defende que sejam propostos, com urgência, planos de ação envolvendo pais, escolas, empresas de tecnologia e governos, com medidas para reduzir o tempo dedicado aos celulares e tablets. Ele sugere a proibição do uso de celulares nas escolas e o incentivo a interações presenciais. As escolas deveriam incluir no currículo aulas sobre os efeitos das redes sociais. Os pais, por sua vez, deveriam evitar que seus filhos tenham acesso às redes sociais antes dos 16 anos e estabelecer horários sem telas, como durante as refeições ou antes de dormir. Também precisam estimular brincadeiras presenciais e atividades físicas, especialmente aquelas que envolvam cooperação e movimento. Além disso, é importante que reflitam sobre o próprio uso de telas e redes sociais, pois o exemplo tem grande impacto. Os governos, por fim, deveriam formular políticas públicas para limitar os malefícios associados à dependência das telas e das mídias sociais.

Celulares trocados por livros

           Haidt cita o exemplo da escola The Boy’s Latin School, no estado de Maryland. A instituição eliminou o uso de celulares e ampliou os horários de recreação para alunos do ensino fundamental e médio. Menos tempo de tela, mais diversão. Como resultado, os meninos ficaram mais focados, conectados e engajados em atividades com os colegas. Alguns chegaram a dizer que sentiram alívio por não ter o celular no bolso.

Aumento do interesse pelos livros

Vários relatos indicam que escolas que limitaram o uso de celulares observaram um aumento significativo no interesse dos alunos pelos livros — fato comprovado pelo crescimento expressivo no número de empréstimos nas bibliotecas escolares. Adam Grant, popular escritor científico e professor da prestigiada Wharton School da Universidade da Pensilvânia, cita o exemplo de uma escola em que os alunos passaram a pegar 2,3 vezes mais livros emprestados. Aumentos semelhantes foram registrados em outras instituições, segundo Grant. É impressionante o que acontece quando as distrações do celular são eliminadas. Sem smartphones, as crianças se tornam mais atentas — e, em muitos casos, mais inteligentes.

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