segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um bálsamo chamado desilusão


O amor quando acontece

A gente esquece logo que sofreu um dia

Ilusão

João Bosco

É comum apontarmos alguém de olhar cabisbaixo, caminhar arrastado, respiração miúda entremeada de longos suspiros e, por conhecer o motivo, lamentar sua condição: padece de uma sombria fossa amorosa. Algo tão arrebatador que retira da pessoa o gosto pela vida, ceifa-lhe as perspectivas, faz minguar os sonhos. As lágrimas, mesmo as represadas (ou principalmente elas), parecem sangue. Neste momento, nada é mais necessário, mais positivo ou libertador do que uma boa desilusão. Afinal, desiludir-se é o contrário de se iludir.

Por tal perspectiva, deveríamos nos preocupar, isto sim, no instante em que encontramos um amigo que parece flutuar, dando bom dia até para postes. Olhar brilhante, muitos planos, projeto de uma vida a dois. A pele com mais viço e mais cor, o sorriso com outro contorno. Está na cara que ninguém é perfeito, infalível ou sublime a ponto de jamais decepcionar o outro. Logo, a alegria dos apaixonados, ela sim, não passa de uma lamentável e perigosa ilusão. De modo estranho, e bem ao contrário, festejamos este estado de espírito.

Racionalmente, há muita desvantagem em atirar-se de peito aberto em uma relação afetiva julgando-a imune ao fracasso. Porém, em se tratando de amor, tudo é sempre invertido. Eis a questão: o que destrói quem ama é o outro desprezar seu sentimento. É quase insuportável não ser mais capaz de contentá-lo. A grande ilusão do amor, sua magia, é nos levar a crer tão sublimes a ponto de suprir o desejo e as necessidades da pessoa escolhida. A irracionalidade do amor não é só projetar no outro o encanto. Antes, sim, é acreditar que somos tudo de bom, e o que temos para oferecer será o suficiente.

Por isso, sofre por amor aquele que ainda ama e não é mais correspondido. Vive sozinho e intensamente a ilusão de que ninguém mais, além dele, será melhor para o outro. Julga incompreensível que o outro não sinta mais a mesma coisa. Inaceitável. Faz, então, um esforço enorme para se tornar infalível esquecendo que sempre falhou – mesmo quando era amado. E cada nova decepção será uma estaca cravada na alma. Enquanto não aceitar o desamor, estará prisioneiro da ilusão. Precisa com urgência se desiludir.

E o caminho da desilusão é de ida e volta. Ida: um abalo gigantesco na autoestima. Você se torna um traste, fica na fossa, considera-se um incapaz. Volta: peraí, há algo errado, eu sempre fui o mesmo. Logo, o outro que não presta, não me reconhece, valoriza ou, finalmente, merece. Quando um lado já consegue elencar os defeitos do outro e, neles, encontrar motivos para a separação, felizmente deixou de amar. Não mais vive a ilusão.

As imperfeições do par, para quem ama, são sempre contornáveis. Caso contrário, todos estaríamos sós, pois ninguém está nem perto de ser bem acabado. O império da razão vence na exata hora em que estar longe passa a ser um alívio (como não conseguimos abandonar a nós, abandonamos o outro). Diz-se com propriedade: livrei-me de um peso. Em um casal, insustentável será não mais amar.

Desiludido em seu ápice estará o sujeito ao jurar de pés juntos nunca mais amar a ninguém. Pode ver que os solitários estão sempre cobertos de razão. O problema é que, com a chegada de um novo amor, a gente esquece. É quando ganhamos a chance de voltar a ser imensa e magicamente iluminados, dando bom dia até para os postes.

Por: Rubem Penz.

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Um comentário:

  1. Nossa! Que texto inteligente, leve e sagaz... Gostei muito, parabéns!

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